O pato manco

João Francisco Neto

“Desgastadas figuras teimam em permanecer para sempre no jogo”

Depois de enfrentar duas denúncias na Câmara dos Deputados, o presidente Temer encontra-se praticamente esgotado politicamente. Pelo que vemos no noticiário, o monumental esforço gasto para conseguir as suadas vitórias nas votações acabou por afetar-lhe a saúde, que não anda lá muito boa. Aliás, em se tratando da saúde presidencial, nunca se sabe bem a extensão da verdade. Para isso, basta lembrar o caso do saudoso Tancredo Neves, apresentado na TV, como se estivesse em franca recuperação, quando já estava à beira da morte.

Enfraquecido, com baixíssima popularidade e com apenas mais um ano de mandato, Temer pode ser classificado como um verdadeiro “pato manco” na esfera política. Trata-se de uma expressão muito utilizada nos Estados Unidos (lame duck), nos casos em que o presidente da República, em final de mandato, não pode se candidatar para reeleição, e seu sucessor já foi eleito. Essa situação provoca uma acentuada perda de poder de mando. Afinal, dentro de pouco tempo, aquela pessoa não terá quase mais nenhum poder.

Com certo humor, os americanos costumam dizer que, naqueles últimos dias, até os garçons passam a servir-lhe o cafezinho com má vontade. Obviamente que as circunstâncias políticas norte-americanas são um tanto quanto diferentes das nossas. Nos Estados Unidos, após o exercício de dois mandatos presidenciais, a pessoa está impedida de disputar ou ocupar quaisquer outros cargos eleitorais. Um ex-presidente americano torna-se, então, uma instituição viva. Em geral, passam a cuidar do seu legado e, eventualmente, auxiliar em grandes questões de Estado, de preferência em missões internacionais.

Tendo assumido o poder na década de 1930, em pleno período da Grande Depressão, o presidente democrata Franklin Delano Roosevelt seria reeleito por três vezes seguidas. Por isso, o Congresso norte-americano acabaria aprovando a 22ª Emenda constitucional, que impede uma pessoa de exercer a presidência da República por mais de dois mandatos, seguidos ou não.

No Brasil, o limite refere-se apenas a dois mandatos presidenciais seguidos; porém, nada impede que, mais tarde, um ex-presidente venha a se candidatar novamente, para qualquer cargo, inclusive para presidente da República. Isso acaba gerando um fator de desestabilização politica, quando antigas e desgastadas figuras teimam em permanecer para sempre no jogo e na disputa eleitoral. Como a história não se repete, viram fantasmas de si próprios.

Já o pato manco na prática tem pouca ou nenhuma influência no cenário político. Afinal, tanto os seus seguidores quanto os seus opositores já estão de olho em quem será o próximo presidente da República. Por isso, as duas alas procuram se descolar de qualquer inciativa impopular apresentada pelo governo. Neste quadro de fim de festa, os partidos da base do governo costumam cobrar mais caro para comprometer o seu apoio. É o que se tem visto nas votações das denúncias contra Temer, em que o governo viu-se obrigado a conceder um enorme volume de emendas parlamentares.

Como se vê, no fundo, o pato manco nem sempre é somente aquele que está perdendo o poder. Por aqui, o pato, manco ou não, costuma ser o próprio povo.

jfrancis@usp.br

* Agente Fiscal de Rendas aposentado,
mestre e doutor em Direito Econômico e Financeiro (FD-USP)
Monte Aprazível-SP

ARTIGOS de JOÃO FRANCISCO NETO

NOTA: O BLOG do AFR é um foro de debates. Não tem opinião oficial ou oficiosa sobre qualquer tema em foco.
Artigos e comentários aqui publicados são de inteira responsabilidade de seus autores

Tags:

2 Comentários to “O pato manco”

  1. Prezado João Francisco, é bom ler alguma coisa otimista nestes tempos bicudos em que vivemos, ainda mais com uma população completamente anestesiada mesmo diante do descalabro que vem sendo este governo. Não sou tão otimista como você, para mim este Nesferatu ainda pode praticar muita maldade, até porque o seu substituto para nós, não é nada alvissareiro! Parece um pesadelo do qual está difícil de acordar.

    • Prezado Sandro,

      De fato, o pato manco que ainda está na chefia do governo seguramente não está tão manco assim; até o final do mandato ele poderá aprontar muito mais, ainda.
      Na verdade, nem sou tão otimista; neste caso, estou mais para o sarcasmo.
      Gostei da sua ideia de chamar o pato mano de “Nosferatu”. Gosto muito do filme, mas da versão original, de 1922, dirigida por F. Murnau, no movimento de cinema mudo que se convencionou chamar de “Expressionismo Alemão”.
      Um grande abraço!

PARTICIPE, deixando sua opinião sobre o post:

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: