Ilusões perdidas

João Francisco Neto

“Por séculos, entra governo e sai governo, e o povo apenas assiste à repetição das mesmas promessas”

A partir da Revolução Francesa (1789), o mundo ocidental passou a alimentar enormes expectativas sobre as realizações que haveriam de vir de instituições como o governo, o Estado, os partidos e os representantes políticos (deputados, senadores e vereadores), a ciência, o progresso, etc. Tudo isso era uma consequência das promessas da democracia, então renovada pelos ideais iluministas pregados pelos revolucionários.

Na prática, somente após a Revolução Francesa que os dogmas e as instituições medievais foram definitivamente superados. Até então, vigorava a crença absoluta na providência divina, como fundamento e solução para tudo, inclusive para legitimar o poder dos monarcas governantes.      

Ocorre que, depois disso, os séculos foram passando e, salvo raras exceções, pouca coisa boa acontecia para o povo. Em muitos países, como o Brasil, embora existam leis e mais leis para garantir direito a tudo, governos e mais governos, o povo tem a convicção de que as coisas vêm até piorando; para outros, elas nunca melhoraram.

Por exemplo, a Europa, que já viveu dias melhores, vem mergulhando num estado de coisas em que rapidamente se desfazem as confortáveis realizações da social-democracia que, por um bom tempo, conseguiu prover o povo das maravilhas do Estado do Bem-Estar Social.

O que se vê hoje na Europa são manifestações violentas, conflitos étnicos, nacionalismos exacerbados, o renascimento de partidos fascistas, grupos de jovens xenófobos a ameaçar imigrantes pobres, etc. A França, um dos berços dos direitos humanos e da moderna democracia, apresenta uma pauta de barbárie que consiste na limitação dos direitos de imigrantes, restrições de minorias religiosas (muçulmanos, em geral), crescimento do ultranacionalismo, etc.

A Grécia, que há tempos se encontra atolada numa crise financeira sem fim, viu crescer em seu território essas mesmas práticas odiosas. A Espanha se vê às voltas com fortes movimentos separatistas, como se viu na Catalunha, que acaba de fazer um plebiscito para esse fim.

No Brasil, ainda que não cheguemos a tanto, o que há é um desencantamento com a política e com todo o discurso que envolve as instituições como o Estado, os representantes políticos e os governos. Por séculos, entra governo e sai governo, e o povo apenas assiste à repetição das mesmas promessas.

É uma amarga sensação de ilusões perdidas, diante do vazio dessas promessas que nunca se realizam. Daí o esgotamento da política e de seus partidos como meios de solução para os graves problemas do povo. O que se vê são políticos e partidos que se preocupam somente com seus interesses próprios, custe o que custar, desde que o preço seja sempre pago pela Nação.

Neste clima de descrença, infelizmente pouca gente, hoje, deposita alguma esperança nas instituições políticas e nas suas promessas.

jfrancis@usp.br

* Agente Fiscal de Rendas aposentado,
mestre e doutor em Direito Econômico e Financeiro (FD-USP)
Monte Aprazível-SP

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One Comment to “Ilusões perdidas”

  1. Quem sabe o colega, eminente Doutor pela USP, com tal artigo que, data máxima vênia e com todo o respeito, é minimalista, pretende então que abandonemos as históricas e grandes conquistas que o mundo, sem dúvida, obteve SIM e em todas as áreas, principalmente nas humanas desde o século XIX, mais precisamente nos últimos 200 e poucos anos de história, com muito, mas MUITO sangue, suor e lágrimas, para retornemos à “crença absoluta na providência divina, como fundamento e solução para tudo, inclusive para legitimar o poder” e, pior, dos novos atualmente autoproclamados monarcas (ao menos nesta nossa terra brasilis) que hoje, realmente, em nome de uma verdadeira nova “eugenia social”, pretendem “limpar” a sociedade dos “cidadãos maus”, abandonando por completo o Estado de Direito fundado na Lei Maior e os princípios de freios e contrapesos que uma República baseada na tripartição do Poder, de Montesquieu, construiu? Se for o caso, devo ressaltar que se abandonarmos o Estado de Direito e a dialética que a democracia política nos permite para que evoluamos sem maiores traumas, quem sabe seja bem mais difícil que nos últimos 200 anos! Poderá ser o caos, a barbárie e, quiçá, da dor, alguma evolução como existiu até aqui possa advir, mas também poderemos criar um mundo tão terrível e desumano que cheguemos ao ponto de fazê-lo, aí sim, chegar ao seu fim! Logo, não sou adepto de discursos apolíticos, contra a política, contra o Estado, que em suma deslegitimam a própria democracia para adotarmos soluções “fáceis”. Poderíamos então aperfeiçoá-la? Sim, sem dúvida, mas jamais deslegitima-la como fonte do poder exercido por homens e para os homens. Interpretando o que talvez pretendesse fazer o colega neste seu artigo, seria uma crítica já nem tão atual às democracias, que diz respeito ao seu caráter representativo e não direto, mas isso não deixaria de legitimar a política e os políticos como necessários para o exercício da democracia, mesmo que diretamente, pois é aí que haveria o embate de ideias e soluções. Enfim, a verdade é, como muito bem deixou cunhado na história Churchill: “Ninguém pretende que a democracia seja perfeita ou sem defeito. Tem-se dito que a democracia é a pior forma de governo, salvo todas as demais formas que têm sido experimentadas de tempos em tempos”.

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