D. Quixote, hoje

João Francisco Neto

“Todos podemos nos reconhecer na complexidade de personagens simples”

No ano de 2016, o mundo celebrou os 400 anos da morte do maior escritor espanhol, Miguel de Cervantes, considerado também um dos mais importantes autores da literatura mundial, principalmente por sua obra mais famosa, “Dom Quixote de La Mancha”, tido como o livro mais lido do Ocidente, depois da Bíblia.

A narrativa desse clássico romance inicia-se com um fidalgo empobrecido (D. Quixote), que, obcecado por histórias de cavalaria, perde o juízo e sai pelo mundo afora para viver aventuras fantasiosas, sempre ao lado de seu fiel escudeiro, Sancho Pança. Na sua incansável busca pela justiça, permeada por muito idealismo, fantasia e realidade, D. Quixote é um dos personagens mais geniais, contraditórios e poderosos da literatura universal.

D. Quixote sempre figurou em todas as listas dos cinco melhores livros de todos os tempos, e já foi eleito o melhor de todos, por um júri composto por grandes escritores. Não por acaso, essa obra já teve diversas adaptações para o rádio, televisão, cinema e teatro em todo o mundo, inspirando musicais, filmes, ballets, etc.

Publicado no ano de 1605 (a 1ª parte), D. Quixote alcançou um êxito imediato, a ponto de naquele mesmo ano terem sido pulicadas mais seis edições, com tradução para diversas línguas. A mais emblemática de todas as imagens de D. Quixote certamente é a que mostra a sua luta contra os moinhos de vento. Em sua loucura, o fidalgo imagina que os moinhos seriam gigantes ameaçadores, contra os quais ele investe com sua lança. Esta cena ficou para a posteridade como um símbolo da luta pelas causas perdidas, ou impossíveis de se alcançar.

A esta altura, cabe a pergunta fatal: por que (ainda) ler D. Quixote hoje, mais de 400 anos depois? Uma resposta simples foi dada por um dos maiores críticos literários do mundo atual, Harold Bloom, para quem D. Quixote é um livro tão original que, quatro séculos depois, ainda continua a ser a obra de ficção em prosa mais avançada que existe.

No mundo moderno, mesmo com as inovações tecnológicas, não avançamos tanto assim no que se refere às mais profundas questões humanas. A essência do drama humano permanece a mesma, ou seja, a vontade de mudar aquilo de que não gostamos, e que somos obrigados a vivenciar, com uma carga de infelicidade e insatisfação. Nesse sentido, todos podemos nos reconhecer na complexidade de personagens simples como D. Quixote e Sancho Pança, com suas dúvidas, medos, frustrações, ambições, sonhos, ideais, mesquinharias, contradições, etc.

Em síntese, D. Quixote, em maior ou menor escala, contempla as características de todos os seres humanos, características essas que transcendem todas as épocas, modas e vão além da própria passagem do tempo. Daí a permanente atualidade da leitura de D. Quixote. Quem se aventurar à leitura, ou releitura, dessa obra magistral, jamais se arrependerá.

jfrancis@usp.br

* Agente Fiscal de Rendas aposentado,
mestre e doutor em Direito Econômico e Financeiro (FD-USP)
Monte Aprazível-SP

ARTIGOS de JOÃO FRANCISCO NETO

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