Saara

Carlos H. Peixoto

O casamento é o Saara do sexo. Não fosse por um camelo que encontrei desgarrado de uma caravana, eu teria morrido de sede na travessia desse deserto.  No limite de minhas forças, consegui montar o animal. Era noite quando alcancei uma tenda em um oásis. Havia música, vinho e muitas palmas. Mulheres contorciam o ventre, dançando até o último lenço.

Água”, pedi, antes de cair de joelhos.

Como abelhas no campo de mirtáceas, seis odaliscas, desnudas do umbigo para cima, livraram-me dos farrapos que eu vestia. Tomaram-me pelas mãos e levaram-me a um canto. Mergulharam meu corpo em uma tigela de cobre, me ensaboaram, me secaram, passaram talco nas partes assadas e massagearam meus pés com óleo de cânfora. Tudo isso elas realizavam ao som de flautas, sob sorrisos e línguas estalando como açoites.

Vestiram-me com uma bata branca, que descia até as canelas. Na mesa do banquete, comi com parcimônia, desconfiado e ansioso: Talvez eu seja a sobremesa. Uma morena de olhos verdes, a quem chamarei Yasmin, seguia-me com olhares gulosos. Minha taça transbordava. Eu reagia como um tolo, ria feito idiota, mas deixava explícito que compreendia os sinais.

Depois, levaram-me até um homem, careca, de enormes bigodes. Supus que seria o dono do harém, o sultão. Fumava um narguilé, e emitindo grunhidos, mandou que eu me sentasse. Obedeci. Indicou-me uma das mangueiras de puxar fumaça. Obedeci. Uma comichão percorreu o tampo de minha cabeça. Depois de um longo silêncio, ele ordenou que eu escolhesse uma das mulheres para passar a noite. Qualquer recusa seria punida com a morte.

No dia seguinte, pedi o divórcio e retornei para o deserto.

Nota do autor: esta é uma obra de ficção baseada em acontecimentos reais, os fatos históricos interpretados estão recheados de presunção.

chpeixoto@oi.com.br

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