Para driblar crise, USP contrata professores temporários

Salário de R$ 1,8 mil em lugar de R$ 10,6 mil do efetivo

Para driblar a crise financeira que afeta a universidade desde 2014, a USP quase triplicou o número de professores temporários no seu corpo docente. Segundo levantamento, a universidade saiu de 69 em dezembro de 2014 para 199 professores neste regime em julho deste ano. Os professores temporários recebem salários de R$ 1,3 mil a R$ 1,8 mil e cumprem uma jornada de 12 horas semanais.

Segundo professores, a contratação de temporários originalmente tinha como objetivo a reposição emergencial de professores em situações em casos de aposentadorias ou licenças. No entanto, a atual gestão estaria adotando a prática de forma mais ampla. Hoje, são 14 concursos com inscrições abertas para contratação de professores temporários e outras 59 em andamento. 
Os interessados precisam passar por um processo seletivo que inclui uma prova prática e uma didática. O salário varia de acordo com a formação do professor: mestres recebem R$ 1.322,41 e doutores, R$ 1.849,66. Um professor permanente com doutorado, contratado em regime de dedicação exclusiva, tem um salário de R$ 10.670,76 na universidade.

Segundo a USP, desde 2014 as contratações de docentes e funcionários foram suspensas como medida para o reequilíbrio financeiro da universidade. Nos últimos três anos, foram 276 contratações de temporários em relação a 376 contratação de professores permanentes – vagas concedidas anteriormente a 2014. A contratação de temporários, no entanto, cresceu ano a ano: 41, em 2014; 78, em 2015; e 127 em 2016.

Antes de 2014, a folha de pagamentos com servidores e docentes era maior do que o orçamento da USP, o que obrigou a administração atual a tirar valores da reserva da universidade para pagar salários. Após o aperto nas contas e programas de demissão voluntária colocados em prática, atualmente a USP gasta 97% de seus recursos com folha de pagamento.

Presidente da Associação de Docentes da USP (Adusp), o historiador Rodrigo Ricupero alega que a gestão do atual reitor Marco Antônio Zago adotou uma política de passar parte dos professores da Univerisdade para regimes com salários menores para economizar.

– Deveria ser uma situação de emergência, mas hoje está se generalizando como uma solução. Hoje, dada a crise financeira, existe uma política de resolver o problema ao passar uma parte dos professores da universidade para regime de salários menores. A política financeira está ditando a política acadêmica – afirma Ricupero.

DISCIPLINAS FANTASMAS

Entre as unidades da USP que mais aumentaram o número de professores temporários estão faculdades tradicionais, como a Escola Politécnica e a Faculdade de Medicina. A Poli tinha dois professores temporários em 2014 e hoje tem dez. Curso mais concorrido no vestibular da USP, a Medicina conta hoje com 11 professores temporários em comparação aos três que tinha me 2014.

Um dos concursos abertos no momento, no curso de Jornalismo, procura um professor que se encarregue de lecionar três disciplinas obrigatórias, entre elas um dos principais laboratórios do curso de graduação, o Jornal do Campus, que inclui a confecção de um jornal quinzenal. O professor deve acompanhar as reuniões de pauta, ler as reportagens feitas pelos estudantes e, geralmente, permanecer na universidade até o jornal ser enviado para a gráfica, o que geralmente leva um dia inteiro. Professores do departamento afirmaram que, nesse caso, a jornada de 12 horas normalmente é ultrapassada.

Apenas no departamento de Letras Modernas na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) são nove professores temporários. Para a chefe do departamento, Lenita Esteves, seria impossível fechar a grade horária sem temporários, isto é, além das disciplinas opcionais oferecidas, não há professores para oferecer nem mesmo as obrigatórias.

– Existe uma exigência maior por interdisciplinariedade. Esse semestre vieram requerimentos de alunos de Editoração querendo fazer minha disciplina de tradução e seria muito interessante fazer trabalhos conjuntos, mas a minha classe já tem 70 alunos. Como eu vou cuidar dessa classe que era para ter 20 idealmente, aceitamos 45 excepcionalmente e tem 70? – disse Lenita.

Com uma jornada semanal de 12 horas, os professores temporários são responsáveis apenas por ministrar as disciplinas para as quais foram contratados, sem nenhuma outra obrigação com a universidade. Já professores permanentes tem uma série de exigências com pesquisa, como a produção de determinado número de artigos científicos, e extensão, como projetos extra-curriculares. Em áreas mais específicas como Linguística, disse a professora, alguns dos contratados não são especializados na área.

A particularidade da USP, que permite que alunos tenham aulas em outros departamentos (um estudante de Direito, por exemplo, pode cursar disciplinas ministradas no curso de Ciências Sociais), dificulta ainda mais o oferecimento de turmas.

– Existe essa ideia bonita de que o aluno possa traçar o caminho acadêmico que ele preferir. Isso é desejável: tem as disciplinas obrigatórias, tem as optativas que permitem que ele opte pelo que ela goste mais. A ideia é boa mas fica algo perverso: você flexibiliza o curso e algumas disciplinas, como o departamento não tem obrigatoriedade de oferecer, essas caem fora, as optativas livres. Tem um monte de disciplinas fantasmas, que não existem, as outras classes lotadas, vai gerando uma situação que é difícil de administrar.

Fonte: O Globo

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