Elefantes na sala

João Francisco Neto

“Veja-se o caso do aumento do custo previdenciário, que muitos fingem que não existe”

Numa interessante crônica publicada no Estadão (07/3/13), Luís Fernando Veríssimo dizia que a única maneira civilizada de se conviver com um elefante numa sala de estar é simplesmente ignorar a sua existência, fingindo que o bicho não está ali. E caso alguém desavisado pergunte o que um elefante estaria fazendo na sua sala, a resposta deverá ser outra pergunta: mas qual elefante?

A expressão “elefante na sala de estar”, originária dos Estados Unidos, é o nome dado aos problemas ou situações constrangedores e sempre muito evidentes, mas que as pessoas preferem ignorar. Na verdade, fazem de conta que não veem o problema (o “elefante”), na esperança que, assim, ele desapareça.

Em resumo, trata-se de uma metáfora que faz referência a uma verdade evidente, que muitas pessoas fingem não perceber, para evitar discutir sobre ela. Agindo como se o “elefante” não estivesse no meio da sala, deixam também de enfrentar o enorme problema que está à sua frente. Muitos acham que, se o problema é tão grande, é melhor nem falar sobre ele.

Ao que consta, a expressão popularizou-se nos Estados Unidos a partir de um anúncio sobre o grave problema do alcoolismo, representado por enorme elefante que aparecia no meio da sala de estar de uma casa. Contudo, a família seguia sua vida, de forma aparentemente normal, “optando” por não ver o elefante.

Não se pode negar que o ambiente familiar é seguramente um dos lugares preferidos desses elefantes. Basta ver os inúmeros casos de famílias que, por décadas, convivem com dramas de todo tipo, sem que ninguém fale abertamente sobre eles, que assim se eternizam sob um clima de falsidade e silêncio.

Entretanto, essa questão não se apresenta somente na esfera familiar; qualquer agrupamento humano como empresas, associações, e até o próprio Estado poderá se deparar com elefantes na sala. Veja-se o caso do aumento do custo previdenciário, que muitos fingem que não existe. Com o aumento da expectativa de vida e a diminuição de entrada de jovens no mercado de trabalho é óbvio que, num breve futuro, esta conta não fechará. Mesmo assim, muitos preferem fingir que esse problema simplesmente não é real.

Outro elefante? A brutal desigualdade social que existe no Brasil. Muita gente faz de conta que é normal que milhões de pessoas vivam na mais completa miséria, sem nenhuma perspectiva. Infelizmente é um problema que só tende a se agravar, e com reflexos negativos para todo o País.

Nesta história há outro grave problema: as pessoas podem até se esquecer do elefante (o problema), mas ele nunca se esquecerá delas. Mesmo que ignorado por um longo tempo, o elefante tende a voltar, sempre. Algumas vezes voltam maiores e mais problemáticos, e sem nenhuma disposição para serem novamente ignorados.

jfrancis@usp.br

*Agente Fiscal de Rendas aposentado,
mestre e doutor em Direito Econômico e Financeiro (FD-USP)

ARTIGOS de JOÃO FRANCISCO NETO

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One Comment to “Elefantes na sala”

  1. Doutor João Francisco, óbvio ululante que elefante há, porém, problema muito maior que dito elefante é a desfaçatez como querem que engulamos tal bicho! Creio que no momento, da forma como querem fazer esta malfazeja reforma é impossível aceitá-la. Discutir o problema democraticamente e procurar solução equânime, justa e que menor prejuízo traga, principalmente aos destinatários finais da previdência que são os milhões de aposentados, pensionistas e aposentandos, os hipossuficientes nesta relação? Sim, por supuesto! Aceitar os ABSURDOS PRETENDIDOS por este governo corrupto, venal, entreguista e golpista?! JAMAIS!! :-\

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