Vacas sagradas

João Francisco Neto

“Nós sempre fizemos assim e deu certo”

Como se sabe, na Índia as vacas são consideradas animais sagrados, com direito a circular livremente por todos os espaços, sem que ninguém possa importuná-las. É óbvio que, nesse contexto, para os hindus é absolutamente proibido o abate e o consumo de carne bovina. As vacas sagradas são animais intocáveis.

No mundo corporativo, a expressão “vaca sagrada” acabou sendo aplicada para designar aqueles funcionários intocáveis, ainda que não contribuam em nada para o bom desempenho da empresa. Ao contrário, frequentemente são pessoas sem conhecimentos ou habilidades, mas que, por motivos diversos, não podem ser demitidas ou sequer cobradas por ineficiência de resultados. Desnecessário dizer que são resistentes a qualquer tipo de mudança.

Em geral, essas “vacas sagradas” são pessoas que possuem muito tempo de empresa, gozam de influência pelo parentesco ou por conta de uma profunda amizade com os donos. Muitas vezes, cresceram com a organização ou são merecedoras de uma grande gratidão por sua importante contribuição no passado. Agora, a direção da empresa não sabe exatamente como lidar com elas. Na dúvida, permanecem na empresa, na condição de “vacas sagradas”, ou seja, ninguém pode mexer com elas.

Contudo, essa questão não se resume a isso. O mundo corporativo convive com muitas outras vacas sagradas, que são antigas práticas, rituais e costumes que outrora faziam sentido, mas que hoje não se justificam mais. Mesmo assim, a empresa teima em mantê-las, por temer mudanças que possam provocar instabilidade e incertezas. Além de acarretar ineficiência, desperdício e aumento da burocracia, esse fenômeno bloqueia todo o processo de inovação, com reflexos negativos para o crescimento da empresa.

Para manter essas vacas sagradas, a empresa se justifica com argumentos do tipo: “nós sempre fizemos assim e deu certo”, ou “em time que está ganhando não se mexe”. Como se vê, muitas vezes, mesmo de forma inconsciente, a própria organização alimenta ou incentiva a perpetuação dessas práticas, quando não as defende.

O pesquisador norte-americano Robert Kriegel, cita alguns exemplos de vacas sagradas corporativas: a vaca tempo: ninguém mais tem tempo para nada, não ter tempo virou uma resposta padrão; a vaca de papel: tudo tem de ser documentado e impresso em papel; a vaca especialista: a última palavra é sempre de que tem mais experiência sobre o assunto, mesmo que sejam ideias ultrapassadas, que não servem para os problemas de hoje. a vaca cliente: a eterna ideia alusão de que o cliente é sempre soberano em seus desejos e expectativas.

Para identificar a existência de vacas sagradas, Kriegel sugere que a organização, partindo do pressuposto de que nada é sagrado ou imutável, faça a si mesma questionamentos do tipo: o que aconteceria se isso parasse de ser feito? Quem criou esta política ou prática? Quando? Por quê? Para quê?

Todavia, a coisa não para por aí. No setor público também existem as tais vacas sagradas. Certas pessoas, ao ingressar em determinados cargos públicos, não se sentem nem um pouco servidores públicos. Ao contrário, sentem-se como integrantes de uma casta superior, a quem todos devem servir, inclusive o próprio Estado, que lhes proporciona todo tipo de benefícios. Haja o que houver, são imexíveis. Quando pegos com a boca na botija, pouca coisa acontece. Em certos casos, são simplesmente aposentados.

Por ora, nada indica que haverá mudanças neste estado de coisas; por isso essas “vacas sagradas” continuarão assim por muito tempo, ainda.

jfrancis@usp.br

*Agente Fiscal de Rendas aposentado,
mestre e doutor em Direito Econômico e Financeiro (FD-USP)

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