Rouba, mas faz

João Francisco Neto

“A famosa ‘caixinha’ teria sido criada ainda na década de 1930”

Nos idos da década de 1950, no então fervilhante ambiente político brasileiro, passou a ser veiculado um curioso bordão, o chamado “rouba, mas faz”. Consta que, inicialmente, foi empregado pelos cabos eleitorais do político paulista Adhemar de Barros, para defendê-lo das seguidas acusações de corrupção. Cinicamente, diziam que Adhemar era um grande tocador de obras, um homem de ação e resultados, que realmente realizava coisas para o povo, ao passo que outros políticos também roubavam, porém nada faziam.

Naquele tempo, Adhemar de Barros já tinha uma sólida carreira politica, iniciada ainda na década de 1930, sob o governo de Getúlio Vargas. Médico, de família rica, Adhemar sempre adotou uma postura extremamente popular e simples, o que lhe conferia grande carisma junto a uma grande parcela do eleitorado paulista. No Estado Novo, foi interventor federal no Estado de São Paulo, duas vezes governador do Estado, prefeito da capital, consolidando-se como um dos mais importantes caciques políticos de São Paulo.

No afã de alcançar a Presidência da República, Adhemar de Barros transformou São Paulo numa vitrine de obras para todo o Brasil; governava como se não houvesse lei orçamentária ou qualquer restrição constitucional, não se preocupando com as despesas. Consta que a famosa “caixinha” teria sido criada ainda na década de 1930, quando Adhemar era interventor federal no Estado. No início, a caixinha era alimentada por contribuições do jogo do bicho e dos cassinos; depois, se alastrou para as demais atividades.

Entretanto, mesmo com toda essa trajetória política, Adhemar de Barros nunca alcançaria o seu objetivo maior, que era a Presidência da República. Disputou duas eleições e foi derrotado. Apoiou o golpe militar de 1964, que pouco tempo depois cassou-lhe os direitos políticos. Exilado em Paris, Adhemar viria a falecer em 1969.

O caráter de grande empreendedor, que realizava obras monumentais, deixou uma legião de seguidores em São Paulo, os “ademaristas”. Entre tantas obras, Adhemar de Barros foi o responsável pela construção do Estádio do Pacaembu, do autódromo de Interlagos, do Hospital das Clínicas da USP, da Rodovia Anchieta, da ampliação do Aeroporto de Congonhas, e pela construção de importantes câmpus da USP, em Ribeirão Preto e São Carlos.

O fato é que, com todo o seu prestígio de administrador ousado e dinâmico, sua memória não conseguiu se livrar do incômodo bordão do “rouba, mas faz”, nunca admitido por Adhemar. O bordão entrou para o folclore político nacional, fez escola e perdura até nossos dias. Embora de forma implícita, tem sido utilizado para justificar atos ilícitos de governos que realizaram “conquistas sociais”, como se isso fosse um salvo-conduto para a corrupção.

Hoje, resta uma esperança de que a Operação Lava Jato consiga por fim a pelo menos uma parte do cinismo desses políticos corruptos, que, a despeito de realizar obras para o povo, querem mesmo é locupletar-se.

jfrancis@usp.br

*Agente Fiscal de Rendas aposentado,
mestre e doutor em Direito Econômico e Financeiro (FD-USP)

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