Ladrões do Estado

João Francisco Neto

“Onde existe má governança, terceiros ocupam esse espaço”

Todos nós sabemos que a corrupção é algo tão antigo quanto a própria humanidade. Há pessoas interessadas em algum negócio público que envolva dinheiro? Então será certo que poderá haver corrupção. Infelizmente, nos últimos tempos parece que o Brasil vem liderando um campeonato mundial da praga da corrupção.  Aí estão os últimos escândalos provocados pelas delações (e gravações) da Operação Lava Jato, cada uma mais pavorosa do que a outra. Ao que consta, ainda há muito mais sujeira por vir à tona.

A dramática situação de países como o Brasil, que vivem num ambiente de corrupção institucionalizada, com governos que se portam como meros intermediários dos interesses privados, levou a jornalista e pesquisadora americana Sarah Chayes a lançar em 2015 um livro chamado de “Ladrões de Estado”, que descreve como as lideranças corruptas conseguem desviar a riqueza de países inteiros, além de produzir violência ou até revoluções.

Nessa obra, a autora demonstra que, onde existe má governança, terceiros ocupam esse espaço, e os governos se transformam em verdadeiras organizações criminosas que estruturam as engrenagens do Estado visando ao enriquecimento pessoal de seus membros e dos terceiros a quem se associam. Esses são verdadeiros ladrões do Estado. Trata-se de um cenário bem conhecido pelos brasileiros, em que resta ao povo apenas trabalhar para pagar os impostos que mantêm a tudo e a todos.

Na verdade, o ponto inicial da pesquisa que levou Sarah Chayes a escrever o livro foi o período em que passou no Afeganistão (de 2002 a 2009), país totalmente contaminado por uma corrupção estrutural. Mais tarde, Chayes verificou que o Brasil também se enquadrava naquele mesmo modelo.

De acordo com a autora, no Brasil embora o sistema seja bem mais sofisticado, produz também um imenso impacto negativo sobre a população. Por sinal, ela observa que, ainda assim, o povo brasileiro vem lidando com a corrupção por meio de protestos pacíficos, ao invés de levar a uma situação de caos violento.

Países devastados pela corrupção frequentemente são palcos de revoluções violentas, da qual o maior exemplo é a Revolução Francesa (1789). Na época, o povo se cansou de pagar pesados impostos para manter uma casta de nobres irresponsáveis e consumidos pela vaidade. Na Alemanha, a maior queixa de Lutero era contra a corrupção desenfreada da Igreja Católica da época (1517); daí o estopim para a Reforma Protestante, a maior revolução religiosa do Ocidente.

Questionada sobre a atual situação brasileira, em que a “Operação Lava Jato” tem revelado níveis de corrupção nunca antes imaginados, Sara Chayes considera que o Brasil deveria aproveitar o seu incrível capital humano e o imenso potencial de riquezas naturais para reverter esse quadro de contaminação da corrupção, de forma pioneira e pacífica, como sempre foi de nossa tradição. Vejamos, então, até onde iremos nessa luta contra os ladrões do Estado.

jfrancis@usp.br

*Agente Fiscal de Rendas aposentado,
mestre e doutor em Direito Econômico e Financeiro (FD-USP)

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One Comment to “Ladrões do Estado”

  1. Quem dera João que essa história toda do país, travestida de combate à corrupção, fosse tão singela assim e de tão fácil explicação. A situação é bem mais complexa e, com certeza, tem o nítido objetivo de nos levar à ruína, dividindo-nos ainda mais, até mesmo com um possível conflito armado. Nossa elite econômica, provinciana, irresponsável e burra, joga esse jogo de poder, inclusive contra si mesma, aliada a interesses forasteiros que, como dizia o muito atual Eduardo Galeano em sua mais célebre obra, “As Veias Abertas da América Latina”, continuam com os dentes cravados na jugular do país e de toda a América Latina, desde os tempos do Renascimento!

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