Direto ao ponto

João Francisco Neto

“A ordem deve ser a clareza e a objetividade, para que o leitor não perca seu precioso tempo”

No Brasil, a tradição bacharelesca sempre levou as pessoas que exercem cargos importantes a escrever e falar de forma um tanto quanto complicada, e muitas vezes até obscura. Dizia-se que essas pessoas “falavam difícil”. Essa praga ainda não acabou. Ao contrário, há muitas categorias profissionais que desenvolvem um linguajar próprio, mas de difícil compreensão para as demais pessoas.  Por exemplo, os operadores do Direito – advogados, juízes, promotores, etc. -, por força do hábito, costumam escrever de uma forma nem sempre bem compreendida pelo povo. É o tal do “juridiquês”. Nesse contexto, o falar difícil é resultado de práticas e costumes antigos da categoria dos “doutores da lei”.

Isso não ocorre somente no Brasil. Nos Estados Unidos, há um debate permanente para a simplificação da linguagem jurídica, que por lá é muito mais complicada do que aqui. As técnicas processuais da common law envolvem petições e sentenças longas e obscuras, com muitas expressões em latim, resultando num texto pouco compreensível para as pessoas comuns, que são a maioria.

Hoje, no mundo dominado pela internet, em que as informações transitam em alta velocidade, não há mais sentido algum em utilizar uma linguagem acessível apenas para poucos. Ao contrário, a ordem deve ser a clareza e a objetividade, para que o leitor não perca seu precioso tempo e vá direito ao ponto. A boa redação é aquela que, observando as regras gramaticais, consegue ser compreendida pela maioria das pessoas. Afinal, de nada adianta redigir um belo texto se quase ninguém for capaz de entendê-lo.

Na última campanha eleitoral americana, os analistas observaram que boa parte do sucesso de Donald Trump pode ser atribuída ao seu modo de falar franco e direto, compreensível por pessoas de todos os níveis culturais, e principalmente os mais simples. Já o sofisticado discurso da candidata Hillary Clinton, advogada formada em escolas de elite, não era bem recebido por eleitores de baixa escolaridade. Os eleitores mais simples, por não entenderem bem o que falava Hillary Clinton, acabavam por não lhe dar importância; e, o que é pior, nem o voto. Já a mensagem de Trump, simples e direta, era muito bem compreendida por todos. O resultado todo mundo viu.

O escritor inglês George Orwell dizia que as pessoas deveriam adotar seis regras bem simples para escrever com clareza: nunca usar uma metáfora ou comparação que você costuma ler sempre; nunca usar uma palavra longa se puder usar outra mais curta; se puder cortar uma palavra, corte; nunca usar a voz passiva se puder usar a ativa; nunca usar um termo estrangeiro ou científico se puder usar uma palavra de uso cotidiano; quebrar qualquer uma destas regras se a alternativa for escrever alguma coisa francamente ruim.

Da mesma forma, deve-se evitar o uso de frases longas; o ideal é organizar as ideias em frases curtas e diretas, que tornam o texto mais leve e objetivo. Os períodos longos são cansativos e confundem o leitor. Utilizar palavras de fácil compreensão, deixando os termos técnicos apenas para os casos em que não for possível evitá-los. Se for absolutamente necessário o uso de expressões em língua estrangeira, deve-se incluir a sua tradução. No fundo, em qualquer caso, a simplicidade será sempre a chave do sucesso para ir direito ao ponto.

jfrancis@usp.br

*Agente Fiscal de Rendas aposentado,
mestre e doutor em Direito Econômico e Financeiro (FD-USP)

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One Comment to “Direto ao ponto”

  1. O resultado das eleições americanas todo mundo viu mesmo, foram 62.985.106 de votos para D. Trump e 65.853.625 para H. Clinton, ou seja, se as eleições fossem diretas e não aquele sistema maluco deles, Hillary teria ganho com 2.868.519 votos de diferença, correspondente a 2,22% dos votos totais. Logo, me parece que o discurso dela foi compreendido sim.

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