Tarja preta

Carlos H. Peixoto

“O melhor candidato a presidente que o Brasil jamais poderá ter”

Praia de Ipanema, meados dos anos 80, o sonho da geração hippie havia virado fumaça, os caras do Biquini Cavadão arrasavam com a música “tédio”. Eu estava sentado na areia, louco pra dar uma bola. Tarja Preta entrou em cena; de sunga preta, ele trazia na mão direita uma maleta de executivo.

– Cara, você vai surfar com essa maleta? – perguntei.

Foi então que o Tarja me contou uma história sinistra. Ele se tornara secretário particular do avô, um velhaco que passou um tempão na vida lutando para ter o direito de ir e vir. Desde então, Tarja Preta não largava a maleta que lhe foi confiada pelo avô, nem para ir ao banheiro – dentro dela estariam os segredos e artimanhas para se chegar à Presidência da República.

Não sei se entendi bem, a família do Tarja era meio paranoica com esse lance de liberdade. Eu não tinha nenhum problema em ficar onde estava. Se eu não tivesse de voltar pra casa eu passava dia e noite na praia.

Pois então, a parada caiu no colo de Tarja Preta como a poeira de chumbo da bomba que explodiu no Rio Centro. Devido ao perfil conciliador, naquele tempo o avô de TP, uma raposa política capaz de se equilibrar até em poleiro de galinha, representava de forma providencial o papel de Lavador de Almas da Nação, “o escolhido”, o cordeiro disposto a se submeter ao cadafalso do Colégio Eleitoral em prol do povo brasileiro.

O país estava uma zorra. Inflação alta, desemprego, greves no ABC, os milicos da linha dura que não queriam largar as tetas da ditadura. “Conciliação” era a palavra chave. A mesma conciliação que garantiria a impunidade dos militares brasileiros, os únicos da América Latina a serem anistiados pelo Supremo Tribunal Federal por crimes imprescritíveis contra a Humanidade. Já dizia Derrida, “consenso é o pavor do que não se expressa”.

Esse papo de conciliação, somado à fixação de ser a presidência um destino e não uma escolha, pirou a cabeça de Tarja Preta, como se ele tivesse levado uma martelada no nariz.

A emoção bombava na tevê, vinte e quatro horas no ar. Por todo lado, passeatas, “DIRETAS JÁ!”, comícios com a presença de grandes nomes da MPB. Época boa pra se pegar mulher. Os manipuladores de massas sabem que a emoção, quando bem administrada torna-se um vício, gerando no usuário o desejo de repetir a tragédia (ou a farsa), levando ao limite o desfecho da história. A parada é muito louca.

O desfecho da transição democrática vocês já conhecem. Depois de trinta e oito dias de agonia, o avô de TP entregou os pontos. Mas antes de ser declarado oficialmente morto o velhinho seria exibido como marionete pelos médicos do Hospital de Base de Brasília, em foto tirada no dia 25 de março de 1985. Seria preciso esperar até o dia 21 de abril para que o corpo do ex-presidente fosse sepultado. Naquele dia, como dizia o maluco beleza, a terra parou para acompanhar o funeral de nosso herói, o homem que derrotou a ditadura militar sem dar um tiro. E lá estava ele, o Tarja Preta, a mão direita agarrada na alça do caixão presidencial, e na esquerda a maleta preta.

Morto seu mentor, o Tarja carimbou o passaporte para o mundo da política, posando como “o melhor candidato a presidente que o Brasil jamais poderá ter”. Tarja Preta não sabia, mas ele estava condenado a repetir o destino do avô: continuar sendo o que sempre foi sem nunca chegar a ser o que poderia ter sido. Confuso, não?

Nem tanto, foi mais ou menos essa a resposta que Tarja Preta deu ao jornalista Josias de Souza: “Tenho dificuldade de entender as surpresas ou frustrações que alguém possa ter com o fato de eu continuar sendo o que sempre fui e fazer o que sempre fiz na minha vida pública.”

Ou seja, o Tarja vai continuar fazendo o que sempre fez. Portanto, o Tarja Preta, como quem não quer nada, não desejaria a Presidência da República. Ele sabe das coisas, sempre esteve na lista, por isso espera e confia que o povo brasileiro queira que ele seja eleito Presidente.

Também estou ficando confuso, mas, segundo a filosofia Acaciana, para que o Tarja Preta um dia venha a se tornar Presidente da República basta que continue fazendo o que sempre fez em todos estes anos de vida pública: cultivar amigos no Supremo, manter o foro privilegiado, frequentar as passarelas, não entrar em debates e fugir de polêmicas. No momento propício, ao contrário da onda que se quebra na areia, TP terá a oportunidade de continuar sendo de novo do jeito que sempre foi um dia. Ficou mais confuso ainda?

Paciência, a História evolui em espiral. Tudo está interligado. Saca o lance do efeito borboleta? Loucura. No caso do Rio Centro foi a irmã de TP, a Madrasta, uma das primeiras pessoas a prestar socorro ao capitão Wilson Dias Machado, sobrevivente do frustrado atentado terrorista no dia 30 de abril de 1985.

Recapitulando: O Tarja ocupou cargos relevantes, mas ainda não se livrou da maldição deixada pelo avô, que consiste em ser o que se é sem nunca chegar a ser o que poderia ter sido. Daí a importância da morte. Para se encontrar com o próprio destino e viabilizar-se como o perfeito candidato à Presidência da Nação Tupiniquim, Tarja Preta conta com a morte de terceiros.

Não é fácil se equilibrar na prancha quando vem uma onda traiçoeira, tragando tudo. “Não adianta fugir, nem mentir pra si mesmo”, já dizia a canção do Lulu. Assim, para justificar seu imobilismo, TP garante que continua o mesmo, enquanto espera na areia os ventos que soprarão a brisa para o lado que ele deseja. Mas o Tarja é um cara esperto, não cai em qualquer uma. Na corrida presidencial de 2018, se o Dória insistir em ser candidato, apoiado pelo picolé de chuchu, ele, o TP, vai empurrar o Serra como candidato dos bicudos, pra ver o paulista perder o resto dos cabelos. E se o Lula concorrer, o Tarja Preta vai ficar quietinho na praia, esperando a marola passar.

Quando as portas da História se abrirem e a Presidência cair no colo do cara, ele não terá pudores em se aliar aos quadros mais medíocres da vaca pública, desde que esses ocupem nacos de poder no Executivo, Legislativo ou Judiciário. Mas, para que seu plano dê certo, é preciso que algo extraordinário ocorra: a morte do homem que poderia derrotar o Tarja Preta.

Quem seria?

Então, no dia em que TP for eleito Presidente da República, a maldição terá chegado ao fim. Tarja Preta estará com 76 anos. O imortal José Sarney presidirá a cerimônia de entrega da faixa presidencial ao Tarja, cada dia mais remoçado…

Desejoso de reviver os dias em que surfava nas noites cariocas, faltando 21 dias para tomar posse como Presidente da República Federativa do Brasil, Tarja Preta inventa de pegar onda em uma praia na Austrália. Segurando na mão direita a indefectível maleta preta, ele arrisca uma manobra para a esquerda, perde o controle da prancha e bate com a cabeça numa boia de aço. Mineirinho morre na praia, como sempre sonhou.

Mas que diabos havia dentro daquela maleta?

Papeis brancos e uma caneta Parker 51, a mesma que Getúlio utilizara para assinar a carta testamento em 24 de agosto de 1954.

 

 

Nota do autor: esta é uma obra de ficção baseada em acontecimentos reais, os fatos históricos interpretados estão recheados de presunção.

chpeixoto@oi.com.br

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2 Comentários to “Tarja preta”

  1. Salve Téo! O que seria da minha vida sem o Tarja Preta?

    Obrigado pelo espaço.

    Carlos

  2. Carlos, você me fez lembrar da campanha em que o chuchu foi candidato a presidente e o TP, veladamente, apoiava uma certa chapa Dilmasia. Parabéns, cara!!!!

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