A política como profissão

João Francisco Neto

“Entre viver ‘para’ e viver ‘da’ política existe uma importante diferença”

Há tempos, a chamada democracia representativa vem dando claros sinais de esgotamento. Basta ver o crescente desestímulo à participação política, principalmente entre as camadas mais jovens, fato que acaba por contribuir para que a atividade política fique cada vez mais restrita a um grupo de políticos que se eternizam no poder. São os “políticos profissionais”, que, além de deter o domínio e o controle da máquina partidária, colocam o mandato a serviço de seus interesses próprios.

A propósito, sobre o tema dos políticos profissionais, Max Weber, em “A Política como Vocação”, aponta as duas formas de atuação política: ou se vive para a política, ou se vive da política. Dessa forma, o indivíduo poderá viver ocasionalmente para a política, como vocação, porém tendo como meio de vida uma outra ocupação profissional, ou, então, viver exclusivamente da política, como se isso fosse de fato uma profissão. Infelizmente, no Brasil não são poucos os que se dedicam a esse “ofício”.

Entre viver “para” e viver “da” política existe uma importante diferença: aquele que vive “para” a política se rege por suas convicções, guiado por princípios e ideais postos a serviço dos cidadãos. Ao contrário, quem vive “da” política atua como um profissional na defesa dos interesses próprios, de seus correligionários e de grupos empresariais que financiam sua campanha eleitoral. Para esses, a política, além de fonte de receitas, constitui-se na verdadeira razão de viver. Para satisfazer essa ambição de poder, comprometem a vida e a honra.

E como se dá a ascensão de um político profissional, aquele que em vez de viver para a politica, serve-se dela para viver? Como no Brasil não há limites para ocupar mandatos parlamentares (vereadores, deputados e senadores), há políticos que se eternizam no poder, por meio de seguidas reeleições. Ainda que sem chances de se eleger, alguns até disputam eleições para cargos executivos, como prefeitos e governadores, apenas para ganhar mais visibilidade e se “cacifar“ para a próxima eleição parlamentar, que é a que de fato lhes interessa.

Uma eventual reforma política poderia impor medidas de contenção à ação desses políticos profissionais. Seriam medidas como a limitação a uma única reeleição para o mesmo cargo no Legislativo; o fim da reeleição para cargos do Executivo; e a obrigatoriedade de renúncia ao mandato parlamentar para disputar cargos no Executivo. É óbvio que, como isso vai contra os interesses dos ditos políticos profissionais, essas medidas não serão aprovadas, muito embora sejam debatidas e até publicamente apoiadas.

A vida desses políticos profissionais sempre foi muito tranquila e amena; porém, nos últimos tempos, há sinais de mudanças no horizonte. Assim, tem aumentado o número de cidadãos que não desejam mais se manifestar apenas no momento da votação; por isso, saem às ruas para protestar contra decisões políticas consideradas imorais. Afinal “quando os que mandam perdem a vergonha, os que obedecem perdem o respeito” (Christoph Lichtenberg).

Não obstante o desestímulo de grande parte da população, vai ficando cada vez mais distante o tempo em que a maioria era composta pelos chamados “analfabetos políticos”. De acordo com um texto atribuído ao dramaturgo alemão Bertolt Brecht, “o pior analfabeto é o analfabeto político. Ele não ouve, não fala, nem participa dos acontecimentos políticos. Ele não sabe o custo de vida, o preço do feijão, do peixe, da farinha, do aluguel, do sapato e do remédio dependem das decisões políticas”.

Mais difícil, portanto, vai se tornando a vida dos políticos profissionais, muitos deles alcançados pela Operação Lava Jato, que, por ora, vem interrompendo longas e bem-sucedidas “carreiras” políticas.

jfrancis@usp.br

*Agente Fiscal de Rendas aposentado,
mestre e doutor em Direito Econômico e Financeiro (FD-USP)

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One Comment to “A política como profissão”

  1. Desde sempre o Brasil está sob o manto de um sistema político composto por pessoas que fazem da política seus próprios negócios, angariando fortunas em meio à negociatas ilícitas, porque são verdadeiros “políticos profissionais”. Há quem diga que políticos profissionais são verdadeiros ladrões do erário e nisso estou propenso a acreditar. Inobstante, o brasileiro até pode ter vocação política, mas, há queles que ingressam na política-partidária, não por vocação, mas sim, para defender seus próprios interesses, sendo essa apenas uma entre tantas razões das crises política e econômica que está empurrando a nação brasileira, cada vez mais, para o fundo do poço, verdadeiro caos difícil de ser revertido.

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