A Janela dos Fabianos

João Francisco Neto

“Esquerdismo, a doença infantil do comunismo”

O fabianismo é um movimento político-ideológico socialista, que teve origem na Sociedade Fabiana (“Fabian Society”), fundada em Londres em 1884, por um grupo de jovens intelectuais que tinham o propósito de reconstruir o mundo com o mais elevado ideal moral possível. Na verdade, a finalidade do grupo era promover a gradual difusão do socialismo, embora rejeitasse a doutrina marxista e, especialmente, a transformação pela revolução violenta. Costuma-se dizer que os fabianos seriam então a “mão direita” do marxismo. A ideia era que a transição do capitalismo para o socialismo fosse realizada sem traumas, por meio de pequenas e progressivas reformas.

Daí a origem do nome “fabiano”, escolhido em homenagem a Quintus Fabius Maximus (275-203 a.C.), político e militar do Império Romano, que conseguiu derrotar o general cartaginês Aníbal, adotando a estratégia de não fazer grandes confrontos diretos, mas sim pequenas e graduais ações para alcançar a vitória, não importando o tempo que tivesse de esperar. Agindo assim, a Sociedade Fabiana pretendia “condicionar” a sociedade, por meio de medidas socialistas lentas e disfarçadas, de modo a não provocar os inimigos do socialismo. O modelo fabiano interessava especialmente  às elites, pois, na confortável condição em que já estavam,  a passagem do tempo não seria exatamente um problema para eles.

Os fabianos ingleses eram muito bem posicionados no meio intelectual; entre eles havia professores, políticos e escritores, como o casal o casal Sidney e Beatrice Webb, George Bernard Shaw e H. G. Wells, entre outros. Além disso, contavam com a preciosa ajuda de aliados estrategicamente instalados em universidades, igrejas e jornais.  Para apoiar a sua missão, em 1895 fundaram uma importante escola, a London School of Economics, que viria a ser uma espécie de quartel-general (hoje, um think tank) do movimento fabiano. Dessa forma, conseguiram manter uma influência permanente sobre as políticas do governo britânico, até a década de 1980, quando subiu ao poder Margareth Thatcher, que fez de tudo para afastá-los dos círculos do poder governamental e desconstruir as suas realizações.

O socialismo fabiano jamais se envolveu em atentados, comícios, passeatas, muito menos em conspirações ou algo do tipo. Seu método de ação sempre consistiu na preparação de intelectuais para que pudessem incutir ideias socialistas nas cabeças dos governantes. Contudo, a Sociedade Fabiana nunca teve muita disposição para se organizar como partido político, permanecendo sempre como um movimento. Porém, isso não impediu que em 1906 um grupo de fabianos colaborasse para a fundação do Partido Trabalhista inglês, que chegou ao poder em 1945 e implantou políticas públicas para criar um estado provedor e assistencialista, que perdurou até o início da era Thatcher.

O movimento fabiano sempre foi objeto de críticas, principalmente por seu evidente paradoxo, na medida em que, dizendo-se socialista, sempre esteve aliado a poderosos setores da alta burguesia. Curiosamente, a crítica mais ácida contra os fabianos foi produzida por Lênin, quando do lançamento do panfleto “Esquerdismo, a doença infantil do comunismo” (1920). Para Lênin, os fabianos ingleses eram extremamente oportunistas, pois no fundo só desejavam mesmo era se aliar à burguesia e ocupar cadeiras no parlamento, exatamente como os sociais-democratas. A defesa dos interesses do povo seria apenas o pretexto para alcançar esses objetivos.

O ideário do fabianismo chegou ao Brasil com Fernando Henrique Cardoso, quando do seu retorno do exílio político na Europa, onde aderiu aos conceitos da “Terceira Via”, que vagamente representa uma posição intermediária entre o capitalismo democrático e o marxismo. Após a derrocada da União Soviética em 1991, a chamada “Terceira Via”, que andava meio em baixa, tomou fôlego e acabou atraindo muitos intelectuais de esquerda que haviam ficado desorientados.

Por fim, uma curiosidade: na biblioteca da London School of Economics encontra-se instalado um famoso vitral – denominado de “A Janela Fabiana”-, que foi projetado por George Bernard Shaw. A ilustração do vitral mostra o globo terrestre sendo martelado sobre uma bigorna pelos principais membros fundadores da instituição, para demonstrar a intenção dos fabianos de reconstruir um novo mundo, segundo os seus princípios. Ajoelhados na parte inferior estão outras importantes figuras do fabianismo, todos em trajes elisabetanos. Um pouco acima, à direita, está encravado o brasão da Sociedade Fabiana: um lobo em pele de cordeiro.

Engana-se, então, quem pensa que os fabianos estão fora de cena; na verdade, estão espalhados por toda parte (como lobos em pele de cordeiro!) e seguindo o lema da instituição “pray devoutly, hammer stoutly” (ore devotadamente, martele fortemente), a indicar que devem manter uma ação contínua, na busca pelos seus objetivos.

jfrancis@usp.br

*Agente Fiscal de Rendas aposentado, mestre e doutor em Direito Econômico e Financeiro (FD-USP)

ARTIGOS de JOÃO FRANCISCO NETO

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