Dois minutos de ódio

João Francisco Neto

“A ‘nova língua’ continua cada vez mais viva; e governos e políticos são os que mais a empregam”

A eleição de Donald Trump continua rendendo notícias inusitadas, como, por exemplo, a negação da realidade de fatos publicamente observados. Logo após o grandioso evento da posse presidencial, uma conselheira de Trump declarou que, ao contrário do que havia sido amplamente divulgado pela imprensa, a cerimônia teria contado com a presença de um público maior do que nas posses de Obama. Para justificar essa divergência (na verdade uma mentira!), a zelosa assessora defendeu a versão do governo como “fatos alternativos”.  Isso já bastou para que boa parte do público fizesse uma correlação com o fantasioso mundo descrito no livro “1984”, de George Orwell, sobre o qual vale a pena saber um pouco mais.

Logo após o final da 2ª Guerra Mundial (1945), o já então consagrado escritor inglês George Orwell (1903-1950), para afastar-se das atribulações da cidade de Londres, refugiou-se num lugarejo remoto e frio, numa ilha ao norte da Escócia. Para os padrões ingleses da época, lá seria uma espécie de fim do mundo. Mas, Orwell tinha uma missão a cumprir: escrever um livro, por encomenda de seus editores.

Em 1949, sob o singelo título de “1984”, a obra foi publicada e muito bem recebida, tanto pelo grande público quanto pela crítica. Um dos primeiros a elogiar o livro foi o então todo-poderoso 1º ministro Winston Churchill, que, como se sabe, não tinha papas na língua e falava o que bem lhe viesse à cabeça.

O enredo do livro traz um retrato assustador de um mundo fictício que vivia sob um governo totalitarista, sufocado por uma atmosfera de terror, em que todos eram permanentemente vigiados. Em resumo, toda a ação centra-se na figura de um personagem, funcionário do partido político dominante de um país imaginário. Esse funcionário trabalha no Ministério da Verdade, mas a sua função consiste justamente na alteração constante da verdade, segundo os padrões da “nova língua” adotada naquele país.

Fatos e dados eram reescritos, sempre de acordo com os interesses do partido. Assim, no mundo de “1984”, o Ministério do Amor era o local onde se praticavam as mais violentas torturas; já o Ministério da Paz era o encarregado pelo planejamento das guerras. Essa linguagem era utilizada para condicionar e controlar o pensamento das pessoas, por meio da inversão dos sentidos, de tal forma que, onde havia guerra dizia-se que havia paz; a escravidão era chamada de liberdade; sofrimento era prazer, e assim por diante.

A realidade era falseada por uma “nova” denominação, induzindo o povo a aceitar como positivas as coisas que eram absolutamente negativas. No fantasmagórico mundo de “1984”, o povo, chamado de “proles”, vivia em permanente alienação, em que o maior de todos os crimes era pensar por si próprio (parece que ainda vivemos naquele mundo…).

O problema da História foi resolvido de uma maneira bem simples: acabando-se com ela, juntamente com o passado e a memória. Em “1984”, o passado e futuro constituíam um eterno presente. De acordo com Orwell: “Todos os documentos foram destruídos ou falsificados, todos os livros reescritos, todos os quadros pintados de novo, todas as ruas, estátuas e edifícios rebatizados, as datas alteradas. E este processo avança, dia após dia, minuto após minuto. A História parou. Nada existia, exceto um infinito presente em que o Partido sempre tinha razão”.

Para ajudar no controle social das massas, o partido incentivava o povo a alimentar um ódio permanente pelo inimigo (os tais “dois minutos de ódio” de que falava Orwell), a admirar a pornografia barata, a literatura de baixo nível, as músicas produzidas por máquinas, e a jogar em loterias cujos prêmios nunca saíam.

Aos poucos, nos damos conta de que já vimos boa parte desse filme, que, aliás, nos parece bem atual. Há mais de sessenta anos, George Orwell traçou um painel que continha vários elementos amplamente empregados tanto por regimes políticos totalitários, como o comunismo e o fascismo, quanto por regimes democráticos. A figura do Big Brother (chefão do partido controlador), ainda que distorcida, foi popularizada e é amplamente utilizada em nossos dias.

A “nova língua” continua cada vez mais viva; e governos e políticos são os que mais a empregam. Donald Trump é só mais um caso. Quando já sabem que não vão tomar nenhuma providência, dizem “estamos estudando o assunto”; quando se diz “eu não sabia de nada” significa que “eu sabia de tudo e não fiz nada”; ao ouvir a expressão “um país de todos”, entenda “um país em que todos pagam muito para que poucos se deem muito bem”, e assim por diante. Infelizmente, o mundo de “1984” ainda não acabou, o que leva as pessoas a sentir muito mais do que apenas dois minutos de ódio.

jfrancis@usp.br

*Agente Fiscal de Rendas aposentado, mestre e doutor em Direito Econômico e Financeiro (FD-USP)

ARTIGOS de JOÃO FRANCISCO NETO

NOTA: O BLOG do AFR é um foro de debates. Não tem opinião oficial ou oficiosa sobre qualquer tema em foco.
Artigos e comentários aqui publicados são de inteira responsabilidade de seus autores

Tags:

One Comment to “Dois minutos de ódio”

  1. No Brasil esse partido da ficção tem nome e CNPJ, chama-se Rede Bobo e nos trouxe até este presente eternamente ruim justamente ao promover os tais dois minutos de ódio contra seus opositores!

PARTICIPE, deixando sua opinião sobre o post:

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: