A sociedade líquida

João Francisco Neto

“Os valores mais importantes da vida acabam submergindo”

A recente morte do filósofo polonês Zygmunt Bauman (1925-2017) nos conduz necessariamente a algumas reflexões. Como um dos mais importantes pensadores da condição humana nos tempos da pós-modernidade, Bauman nos deixa um legado de ideias provocadoras e instigantes.

Karl Marx, na sua conhecida obra “O Manifesto Comunista” (1848), lançou uma frase tão perturbadora quanto o próprio comunismo, que então se anunciava: “Tudo que é sólido se desmancha no ar”. O que Marx queria dizer é que, naquela época (o século 19), todas as estruturas históricas, então solidamente estabelecidas, começavam a se desmanchar com o advento de um novo tempo de revoluções. Ele não estava errado, pois de lá para cá o mundo nunca mais seria o mesmo.

Depois de muitos sonhos e revoluções, o comunismo literalmente desmoronou-se com a queda do Muro de Berlin (1989), inaugurando, a partir de então, uma nova era: a era da “modernidade líquida”. Trata-se de um conceito criado por Bauman, que tem uma vasta produção de estudos que tratam das incertezas da vida no período denominado por muitos de “pós-modernidade”.  

Para Bauman, a vida na pós-modernidade perdeu a solidez das certezas que historicamente marcavam a trajetória humana. Bauman chama esse fenômeno de “modernidade líquida”. Líquida porque não tem mais forma e, num mundo cheio de possibilidades, vai se amoldando a qualquer situação, ao contrário das sociedades antigas que planejavam a vida e estabeleciam metas sólidas para o longo prazo.

Hoje, com avanço das tecnologias e com a exacerbação do consumo, tudo ficou mais rápido, porém menos sólido. É possível fazer amigos com a rapidez da internet; mas, esses “amigos” somem da mesma forma como chegaram. A família já não é mais tão sólida e unida como era; a fragilidade e a incerteza se estendem às relações afetivas, à política, à religião, etc.

Neste mundo de incertezas, em que as relações sociais são fluidas e líquidas, as pessoas vivem assoladas por dúvidas, ansiedade e depressão, em busca de um padrão de felicidade que a maioria não consegue alcançar. A sociedade pós-moderna passou de uma fase “sólida”, em que havia projetos simples para a vida toda, para uma fase “líquida”, em que as pessoas têm a sensação de poder sempre “começar de novo”. Mas só a sensação.

Nestes tempos de sociedade líquida, os valores mais importantes da vida acabam submergindo num processo em que tudo pode ser transformado em mercadoria, disponível para o consumo imediato: o amor, as relações pessoais, e, um último caso, até as próprias pessoas.

Este é o cenário amargo dos tempos atuais, em que os valores sólidos e tradicionais de há muito foram deixados para trás. Assim, podemos estar certos de que o mundo sentirá muita falta de Bauman e de suas preciosas reflexões.

jfrancis@usp.br

*Agente Fiscal de Rendas aposentado, mestre e doutor em Direito Econômico e Financeiro (FD-USP)

ARTIGOS de JOÃO FRANCISCO NETO

NOTA: O BLOG do AFR é um foro de debates. Não tem opinião oficial ou oficiosa sobre qualquer tema em foco.
Artigos e comentários aqui publicados são de inteira responsabilidade de seus autores

Tags:

2 Comentários to “A sociedade líquida”

  1. Parabéns pelo excelente texto prezado colega João Francisco. É um prazer ler suas ideias, que sempre nos acrescentam conhecimento e cultura.
    Permita-me apenas um comentário. Nesta nossa atual sociedade líquida parece muito oportuna a frase de Marx, pois o pouco de sólido que havia, de fato, está se desmanchando no ar. Haja vista nossos direitos adquiridos de ordem previdenciária, onde com todos os requisitos de regras constitucionais de transição devidamente cumpridos, mesmo assim, parece que esse governo vil e mau caráter pretende desmantelá-los com uma canetada. Ora, como se ter segurança jurídica com essa liquidez toda em relação ao que nos pertence ou não? Como planejar um futuro, cultivar valores familiares ou a tradição, enfim, ter “a solidez das certezas que historicamente marcavam a trajetória humana”, se sequer sabemos o que teremos ou não amanhã, ainda mais sob o fundamento de um discurso frágil, sem base na realidade dos fatos e que não convence ninguém?
    Além da vilania de querer cortar direitos históricos sociais e previdenciários, para economizar apenas no lado mais fraco e gastar aos borbotões em publicidade oficial, em trocas de móveis, em compras sem licitação de armamentos, etc e outras coisas sem relevância para o povo.
    Portanto, creio que vivemos hoje uma sociedade líquida e iníqua!

    • Prezado Sandro,

      Agradeço-lhe pela atenção e pelas palavras generosas em relação ao artigo.

      Suas observações são muito oportunas e complementam tudo aquilo que o texto apenas consegue sugerir.

      Ao final, você aponta o grande problema que aflige a sociedade atual: a iniquidade !

      Abraço,

      João Francisco

PARTICIPE, deixando sua opinião sobre o post:

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: