A desglobalização

João Francisco Neto

“Os eleitores de lá votaram majoritariamente em Trump, que lhes prometia os empregos de volta”

Muito já se escreveu sobre a surpreendente vitória eleitoral de Donald Trump nos Estados Unidos, e muito mais haverá de ser dito e escrito, até que se analisem muito bem todos os fatores que levaram àquele resultado.  Uma das hipóteses veiculadas tem a ver com a chamada desglobalização.  Como o próprio nome indica, a desglobalização é um fenômeno caracterizado pelos movimentos contrários à globalização e à ação de seus representantes máximos, entre os quais o FMI, o Banco Mundial e as grandes corporações transnacionais.

Em síntese, a desglobalização promove o protecionismo, o nacionalismo, e é favorável ao levantamento de barreiras contra o fluxo mundial de pessoas, mercadorias e capitais.  Tendo alimentado a sua campanha eleitoral com essas bandeiras, Trump conquistou a presidência dos Estados Unidos, prometendo aos seus eleitores trazer de volta os empregos que haviam sido deslocados para a China, por força da globalização da economia.

Um pouco antes, a globalização havia enfrentado a sua pior onda contrária, que foi a decisão tomada pelo Reino Unido de sair da União Europeia, fato mundialmente conhecido como “Brexit”. Essa decisão foi o resultado de uma votação popular (um plebiscito), que venceu por uma pequena margem, tendo recebido os votos de cidadãos que se sentiam prejudicados com a chegada das massas de refugiados, com a abertura das fronteiras para produtos asiáticos, e pela fuga de empresas para o exterior em busca de mão-de-obra mais barata, levando também os empregos para fora do país. O Brexit representou não só um rombo na até então sólida União Europeia, como provocou um abalo nas estruturas da globalização.

A desglobalização atua para desfazer os efeitos nocivos da globalização.  Nos Estados Unidos, a região dos Grandes Lagos, outrora a área mais industrializada do país, agora ficou conhecida pelo codinome pejorativo de “Cinturão da Ferrugem”. Lá se concentravam as principais indústrias do ramo siderúrgico, automobilístico e metalúrgico. Entretanto, por diversas causas – entre elas, a globalização -, aquela região se encontra hoje totalmente sucateada e com altas taxas de desemprego.  Grande parte da produção industrial migrou para outros países, para baixar seus custos, sacrificando os empregos locais. Obviamente, os eleitores de lá votaram majoritariamente em Trump, que lhes prometia os empregos de volta.

Estudiosos do tema ainda debatem se os movimentos antiglobalização sinalizam para uma nova era ou se seriam apenas de uma condição transitória. A esta altura não faltará que se pergunte: e nós, no Brasil, o que temos a ver com isso? Como país emergente que somos, temos tudo a ver.

Basta observar que a retração da economia chinesa fez com que o preço das commodities – matérias-primas negociadas nos mercados internacionais – despencasse e atingisse em cheio a economia brasileira, que vinha se beneficiando dos enormes volumes de exportação para a China. De certa forma, até a China já adota posições antiglobalização, voltando-se para o seu enorme mercado interno. O avanço do movimento antiglobalização fará perdedores e ganhadores; daí que, como se já não bastassem os nossos graves problemas internos, esse será mais um desafio a ser enfrentado pelo Brasil na complexa arena das relações internacionais.

jfrancis@usp.br

*Agente Fiscal de Rendas aposentado, mestre e doutor em Direito Econômico e Financeiro (FD-USP)

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One Comment to “A desglobalização”

  1. Pois é prezado colega João Francisco Neto e logo agora, com esse governo golpista que aí está, nós estamos sendo massacrados com medidas pró-mercado e pró-globalização (privatizações e entrega de capital e riquezas nacionais sem titubear e em liquidação, acabando com investimentos importantes da Petrobrás o que acabou com a reerguida e importante indústria naval e em áreas estratégicas ao país como Energia Nuclear, com suspensão do projeto do submarino nuclear, questionamento da compra dos caças, construção civil, etc) sucateando a renda e direitos do trabalhador, que é a grande mola propulsora do consumo interno que nos permitiu até há bem pouco tempo passar praticamente que incólumes pela gravíssima crise financeira e econômica que afetou todo o mundo e a Europa em cheio. Espero que possamos nos livrar logo dessa crise política que arrasta o país para um caminho trágico de perda de direitos em diversos níveis, desemprego, recessão e quebra de empresas, para retornarmos ao caminho da prosperidade que vínhamos trilhando. Tomara que a gestão de Trump nos obrigue aqui a voltarmos atrás nesses desatinos desse governo que apenas privilegia multinacionais tanto na área da exploração de petróleo, com quer entregar a saúde, a educação e também a previdência para a impiedosa exploração do mercado privado, sucateando ou inviabilizando o que existe de serviço público na área.

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