Diplomas vazios

João Francisco Neto

“A ilusão do curso universitário como forma de subir na vida continua a povoar a mente dos pais”

O final de ano, além das férias escolares e das festas natalinas, inaugura uma temporada de formaturas e colações de grau para muitos estudantes. São belas cerimônias, atentamente acompanhadas por pais orgulhosos e jovens formandos esperançosos, tudo sob a justa expectativa de um futuro melhor. Afinal, a sociedade como um todo acredita no poder transformador da escola, como forma de impulsionar o processo civilizatório e a própria condição de vida da pessoa.

Nem sempre foi assim. Nos intensos debates travados durante a Revolução Francesa (1789-1799), muito se discutiu se a educação pública e gratuita deveria ser um direito assegurado ao povo. Embora muita gente boa achasse que não, ao final foi vitoriosa a tese de que caberia ao Estado o dever de proporcionar a todos um ensino público e laico (desvinculado da religião), e capaz de transformar as pessoas em cidadãos. Desde então, essa conquista revolucionária passou a ser um paradigma para quase todas as modernas democracias.

No Brasil, o ideal de uma educação pública e gratuita para todos chegou tardiamente; porém, nas últimas décadas avançamos rapidamente para a universalização do ensino. A questão que se põe hoje não é tanto pela inclusão e sim pela qualidade do ensino público oferecido.  À medida que foi sendo proporcionada a escola para todos, o nível foi rapidamente se deteriorando.

Atualmente, além da situação lamentável da escola pública, uma grande parcela de jovens formandos se depara com dificuldades para se inserir no mercado de trabalho em sua área de formação. Depois de anos de esforços e sonhos alimentados com muita esperança, milhões de jovens amargam a frustração de não encontrar um emprego condizente com o seu diploma.

Nas últimas décadas, houve uma proliferação de cursos universitários que nem sempre guardam relação com a necessidade do mercado, ou seja, há muitas faculdades formando pessoas que não conseguirão ser empregadas na área de seus diplomas, simplesmente porque não há a necessidade de tantos profissionais daquela área.  A facilidade de acesso aos cursos de graduação foi uma das consequências da multiplicação das instituições privadas, ao lado da maior oferta das bolsas do Prouni e do Fies (Fundo de Financiamento Estudantil).

Juntamente com o ideal transformador da educação, fortaleceu-se também o mito de que os diplomas universitários seriam sempre a garantia de melhores empregos e condições de vida. Há décadas, quando o ensino universitário era um privilégio para poucos, realmente o diploma era uma garantia de um futuro promissor. Hoje, nem tanto.

O Brasil e o mundo mudaram muito nos últimos tempos (globalização, internet, sistemas de informação, etc.), porém a ilusão do curso universitário como forma de subir na vida continua a povoar a mente dos pais, sendo transmitida para os filhos desde pequenos.  Alimenta-se, então, a fantasia de que as melhores opções de profissão são aquelas oferecidas pelas universidades, seja lá que curso for, desde que seja “superior”. Pouca atenção se dá aos cursos técnicos, que podem abrir janelas interessantes para a vida profissional de muitas pessoas. O resultado disso é uma multidão de jovens formados, que, não encontrando o emprego adequado à sua qualificação, descobrem tardiamente que têm em mãos um diploma vazio, embora de nível superior.

jfrancis@usp.br

*Agente Fiscal de Rendas aposentado, mestre e doutor em Direito Econômico e Financeiro (FD-USP)

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