À beira do abismo

João Francisco Neto

“Ao longo das décadas, o Rio foi sendo vítima de saques e desmandos”

Desde o descobrimento do Brasil em 1500 que nunca se falou tanto de Cabral, como agora. Mas não exatamente do fidalgo português Pedro Álvares Cabral. O assunto em pauta é a prisão do ex-governador Sérgio Cabral, que monopolizou o noticiário político dos últimos dias.

Agora preso, Sérgio Cabral já representou um sopro de renovação no decadente e corrupto ambiente político do Estado do Rio de Janeiro. Eleito governador do Rio de Janeiro em 2006, Cabral foi o responsável pelo início da instalação das famosas UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora), o que lhe conferiu grande popularidade local e expressiva visibilidade nacional. Mais tarde, em 2009, Sérgio Cabral ajudou a dar início às obras para os Jogos Olímpicos, que transformariam a cidade do Rio de Janeiro num fervilhante canteiro de obras.

Por alguns anos, Cabral viveu embalado num clima de euforia, progresso e modernidade. Porém, a maré começou a virar a partir de 2011, quando vieram a público as suas estreitas ligações com empresários acusados de envolvimento em atos de corrupção. Daí para frente, as coisas não pararam de piorar para Sérgio Cabral.

A sua popularidade afundou de vez assim que foram publicadas a fotos de um jantar em Paris, em que Cabral aparece na companhia de empresários acusados por corrupção, todos comemorando com guardanapos enrolados na cabeça. A onda de protestos de rua de junho 2013 elegeu Sergio Cabral como o inimigo nº 1 do Rio de Janeiro. A partir daí, foi apenas uma questão de tempo para se chegar à prisão, ora realizada.

Sem contar a ação dos corsários franceses que há séculos por lá aportavam, não é de hoje que o Rio vem sofrendo pela ação predatória de políticos demagogos ou corruptos. A partir do golpe militar de 1964, emergiu na cena política do antigo Estado da Guanabara a soturna figura do governador Chagas Freitas, que dominaria o MDB local (atual PMDB), até os primeiros anos da década de 1980, instituindo o “chaguismo”, uma mistura de clientelismo com um intenso loteamento de cargos para aliados.

Depois de Chagas Freitas, veio Leonel Brizola, que ficaria marcado por realizar uma administração polêmica, inclusive com acusação de ter mantido ligações com contraventores do jogo do bicho e de ter sido omisso no combate ao tráfico de drogas. Antes de Sérgio Cabral, o Estado do Rio foi governado por Anthony Garotinho (recentemente preso pela Polícia Federal), além de Benedita da Silva e Rosinha Garotinho, entre outros, que pouco ou nada realizaram.

E assim, ao longo das décadas, o Rio foi sendo vítima de saques e desmandos, até chegar à situação atual, de verdadeira calamidade pública. Nem os royalties do petróleo foram suficientes para impedir a catástrofe. A triste sina do Rio, de certa forma, reproduz a do Brasil. Utilizando-se de uma metáfora criada pelo filósofo húngaro Georg Lukács, pode-se dizer que, ao longo dos tempos, boa parte da classe política dominante do Rio esteve alheia a tudo, como se vivesse num grande hotel de luxo, porém à beira de um abismo. Finalmente, parece que alguns começaram a cair nele.

jfrancis@usp.br

*Agente Fiscal de Rendas aposentado, mestre e doutor em Direito Econômico e Financeiro (FD-USP)

ARTIGOS de JOÃO FRANCISCO NETO

NOTA: O BLOG do AFR é um foro de debates. Não tem opinião oficial ou oficiosa sobre qualquer tema em foco.
Artigos e comentários aqui publicados são de inteira responsabilidade de seus autores

Tags:

PARTICIPE, deixando sua opinião sobre o post:

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: