Trump e a maioria silenciosa

João Francisco Neto

“O discurso “patriótico” de Trump colocou em primeiro lugar os interesses do cidadão médio americano”

Em 1969, o presidente americano Richard Nixon, visando obter o apoio da opinião pública para enfrentar as crescentes manifestações de rua contra a Guerra do Vietnam, convocou a imprensa e proferiu um vigoroso discurso, em que apelava pelo apoio da “maioria silenciosa”. Para ele, a maioria silenciosa seria composta pelo grande número de cidadãos americanos que não saíam às ruas para protestar, e que, ao contrário, seriam favoráveis à continuação do conflito no sudeste asiático. A chamada “maioria silenciosa” seria formada por cidadãos comuns, contrários aos valores da contracultura da época, e que pretendiam apenas viver normalmente e criar seus filhos num país estável e seguro. Esse discurso foi muito bem recebido pela população americana, e Nixon, convencido de que detinha o apoio da grande maioria silenciosa, logo enviou mais tropas para o Vietnam.

Hoje, tanto depois, a maioria silenciosa norte-americana é composta por cidadãos brancos simples, empobrecidos, desempregados, muitos deles trabalhadores rurais do meio-oeste, que não se sentem representados pelos governos dos Democratas e tampouco pelos valores que defendem. São pessoas que outrora gozavam de uma confortável situação econômica, mas que hoje, amargando o desemprego e a falta de perspectiva, veem com desconfiança os trabalhadores estrangeiros que se submetem a qualquer emprego. Também não entendem (ou não querem entender) a razão pela qual as empresas americanas optam por se instalar fora do país, suprimindo os seus empregos em território americano.

Para esses americanos médios da maioria silenciosa, o governo democrata estaria privilegiando minorias, como negros, hispânicos, mulheres e até imigrantes ilegais. Para os integrantes da maioria silenciosa pouco importa o que se passa na Síria ou no Iraque. Da mesma forma, pouca importância dão a tratados de livre comércio, protocolos e acordos ambientais para redução da emissão de gases, etc. No fundo, gostariam de recuperar seu antigo e confortável padrão de vida, alimentado pelo “sonho americano”, que hoje se esvaiu por força da globalização dos mercados.

Donald Trump atuou justamente neste vasto setor da população americana, prometendo-lhes a devolução de seus empregos e a primazia das políticas públicas americanas, ainda que, para isso tenha que descumprir acordos comerciais, tratados, convenções, etc. Em resumo, o discurso “patriótico” de Trump colocou em primeiro lugar os interesses do cidadão médio americano. Não por acaso, seu slogan de campanha foi “Devolver a grandeza à América”.

É para essa gente que Trump fez campanha. Milhões de cidadãos frustrados, que nos últimos tempos sentiam-se decepcionados e desmotivados para participar do jogo político, agora foram despertados pelo discurso politicamente incorreto de Trump. O recado foi recebido pela maioria, que, embora silenciosa, não é surda. O resultado está aí.

O caso da eleição de Trump pode muito bem servir de reflexão para nós, aqui no Brasil. Afinal, há milhões de brasileiros que nunca são ouvidos, pois não se manifestam nas ruas, não têm espaço na imprensa, não bloqueiam avenidas nas grandes cidades, não participam de carreatas e tampouco de passeatas, vestindo verde e amarelo, não ocupam universidades, etc.. Mas essas pessoas existem e, por sinal, são a maioria. A maioria silenciosa, que muitas vezes passa despercebida pelos institutos de pesquisas. Daí a origem de certos erros grosseiros de previsão dos resultados em eleições, tanto lá como cá.

jfrancis@usp.br

*Agente Fiscal de Rendas aposentado, mestre e doutor em Direito Econômico e Financeiro (FD-USP)

ARTIGOS de JOÃO FRANCISCO NETO

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