Política, mentiras e propaganda

João Francisco Neto

“Nunca se mente tanto como antes de uma eleição, durante uma guerra e depois de uma caçada”

As últimas eleições municipais revelaram um cenário de apatia do eleitorado, com elevado número de votos em branco, nulos, e muitas ausências. Além disso, assistimos à debandada dos antigos e poderosos marqueteiros políticos, que, em outras épocas, agiam como se fossem os verdadeiros donos das campanhas eleitorais. Até bem pouco tempo, os principais candidatos nada faziam sem a preciosa orientação dos marqueteiros, pagos a peso de ouro, com recursos muitas vezes de origem duvidosa.

Nada parecia impossível para esses verdadeiros magos da comunicação. Consta que um deles teria dito que poderia vender a imagem de qualquer candidato da mesma forma como se vende sabão em pó. Para isso, lançavam mão das mais variadas “técnicas”, realizando campanhas políticas turbinadas pelo poder do dinheiro, apresentando candidatos medíocres como grandes estadistas, ao mesmo tempo em que era amplamente utilizada a estratégia de envolver a imagem dos adversários em escândalos midiáticos, tudo permeado por muita manipulação e mensagens de esperança e fé, sabidamente falsas e ilusórias, que resultavam nos conhecidos “estelionatos eleitorais”.

Não é de hoje que a propaganda política foi elevada a uma questão central para candidatos e governantes. Por exemplo, grande parte do projeto levado adiante pelos nazistas ocorreu graças ao laborioso serviço de propaganda arquitetado por Joseph Goebbels (1897-1945), um funcionário extremamente leal, que privava do círculo mais íntimo de amigos de Hitler. De acordo com Goebbels, “uma mentira repetida por mil vezes torna-se uma verdade”.  Nesse mesma linha, o velho chanceler alemão Otto von Bismarck (1815-1898) já dizia que “nunca se mente tanto como antes de uma eleição, durante uma guerra e depois de uma caçada”.

Outro recurso utilizado por Goebbels era dar como certa e definitiva qualquer suposição ainda não comprovada, desde que fosse favorável ao regime. Outra estratégia consistia em emitir notas deturpadas para a imprensa, que, por sua vez, acabava por publicá-las sem qualquer exame crítico. Logicamente, eram notas sempre convenientes aos propósitos nazistas. Antes de desfechar qualquer ataque a outros países, o governo nazista preparava a opinião pública, fazendo-a crer que toda agressão a outros povos era tão somente uma mera reação defensiva. De alguma forma, muitas dessas “técnicas” acabariam por ser incorporadas à comunicação de massas contemporânea.

Aliás, o incansável gênio diabólico de Goebbels resumiu a sua vasta “teoria da propaganda” em 11 princípios, todos muito simples, claros e diretos, para que todos entendessem logo a mensagem, sem necessidade de muito raciocínio. Dentre o quais citamos os seguintes: “princípio da exageração”: exagerar as más notícias relativas ao adversário, a fim de criar um clima de profunda insegurança e temor na população; “princípio da vulgarização”: transformar todas as ações do inimigo em coisas vulgares e ordinárias; e “princípio do silêncio”: ocultar toda a informação que não seja conveniente para si próprio e para o regime. Pelo que se vê, as ideias de Goebbels não são coisas do passado; ao contrário, continuam válidas e bem atuais.

Voltando ao Brasil, observamos que a recente campanha eleitoral sofreu um forte revés em virtude das ações da Operação Lava Jato, da crise econômica e da nova legislação eleitoral, que restringiu doações e contribuição de empresa. Neste cenário adverso e sem recursos para produções grandiosas, saíram de cena as grandes estrelas do marketing político brasileiro, para dar lugar aos profissionais do segundo escalão, muito menos conhecidos e bem mais baratos. Vejamos até onde vai esse estado de coisas, pois em 2018 teremos eleições presidenciais e parlamentares, em que os candidatos costumam praticam um jogo extremamente pesado para obter bons resultados.

jfrancis@usp.br

*Agente Fiscal de Rendas aposentado, mestre e doutor em Direito Financeiro (Faculdade de Direito da USP)

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