Gestão de Pessoas: o fracasso inevitável da Centralização

Alexandro Afonso

Em um dia qualquer uma pessoa qualquer ouviu uma reclamação do tipo “o outro setor está sobrecarregado, é necessário reduzir a demanda”. Não era mentira, o outro setor estava realmente com problemas graves. Como temos visto no Setor Público, normalmente o Gestor Público busca reprimir a demanda, mas não se deveria pensar em aumentar a oferta?

Quando se fala em aumento de oferta o Gestor Público padrão brasileiro só consegue pensar em mais concursos, mais pessoal, mais horas de trabalho ou mais controle sobre os servidores públicos, que em sua cabeça são sempre preguiçosos. Por questão de sobrevivência o Gestor Público nunca irá refletir sobre sua própria atuação como Gestor. Afinal, se ele admitir que ele é o problema restarão duas opções: pedir a própria substituição ou mudar. Mudança é algo que geralmente um Gestor Público abomina. Logo, a solução óbvia é colocar a culpa em alguma coisa que não seja a própria Gestão.

Em nossa história de ficção, que nada tem de semelhante com a realidade, o setor sobrecarregado era gerido com base na Centralização e Controle, um clássico da Gestão Pública! Já o setor que estava sendo reprimido era gerido com um modelo diferente: um modelo baseado em Autonomia com Responsabilidade centrado em Gestão de Pessoas e Resultados.

Para ilustrar o problema montei a figura abaixo. Os retângulos representam os servidores enquanto suas bases representam a capacidade de trabalho e as esferas cada trabalho diferente.

alea1

A Gestão Pública brasileira normalmente não é muito criativa. O setor com problemas também não era gerido com nenhuma inovação e o modelo escolhido havia sido o de Centralização e Controle, como já explanado. A ideia desse modelo é que o chefe é a única pessoa capaz de tomar decisões enquanto os servidores abaixo dele são pessoas que precisam de tutela porque não tem bom senso suficiente para entender toda a complexidade dos trabalhos. Nesse modelo os servidores são meros cumpridores de ordem enquanto o chefe é o expedidor das ordens, controlador da qualidade e liberador de trabalho. Tudo deve obrigatoriamente passar pelo chefe e ser assinado por ele. Ele é o Super Homem Tributário. A figura abaixo ilustra o fluxo de trabalho sob este modelo:

alea1

O setor que estava sendo reprimido tinha outra lógica de funcionamento. O Modelo de Gestão era baseado em Gestão de Pessoas e Resultados, o lema era “Autonomia com Responsabilidade”. Dessa forma, o chefe sequer se auto intitulava “chefe”, não havia sentido sequer escolher um nome para a função porque esse nunca era o foco. A pessoa que tinha a função de chefia exercia na verdade a função de verificar o que faltava para a equipe desempenhar melhor suas funções, seja coletivamente ou individualmente. Ou seja, o “chefe” só fazia gestão de pessoas e levantava o resultado. As decisões eram totalmente democráticas e em todo o tempo que se tem notícia não houve uma única vez que o “chefe” precisou dar a palavra final porque a equipe amadureceu a ponto de conseguir decidir mesmo na divergência. A figura abaixo ilustra o modelo de Autonomia com Responsabilidade:

alea1

Como se pode ver nas duas figuras, a questão é tão clara que se torna óbvia. A capacidade dos servidores sempre será “W”, mas o “chefe” pode limitar essa capacidade através da centralização e controle estrangulando para a sua própria capacidade “G”. Esse é o conceito de Gargalo tão famoso na administração (e tão antigo –sic). Habitualmente um Gestor deve trabalhar eliminando gargalos, mas normalmente os Gestores Públicos brasileiros trabalham em sentido contrário sendo a fonte de criação dos Gargalos. É um desserviço à sociedade.

O modelo de Autonomia com Responsabilidade preserva a capacidade “W” entregando “K” de mesmo valor quando totalmente implantado. A grande questão que os Gestores Públicos não querem enfrentar é que durante a implantação desse modelo a capacidade tende a se reduzir consideravelmente. Dependendo da quantidade de tarefas o tempo para colocar em prática o modelo de Autonomia de forma eficiente pode se estender a seis meses ou mais. É o preço que se precisa pagar pela maior capacidade de trabalho mediata.

Na nossa história de ficção a unidade que estava sendo reprimida levou cerca de quatro meses para igualar a produtividade do modelo centralizado. Após esses quatro meses o modelo de Autonomia com Responsabilidade ganhou em eficiência e eficácia enquanto os servidores se adaptavam a tomar as decisões por si mesmos. Após um ano no novo modelo a capacidade geral da unidade havia mais do que dobrado. A oferta tinha sido duplicada. O problema do exposto no início desse artigo era esperado, ao aumentar a eficiência e eficácia de uma unidade sem que as demais acompanhassem era natural que novos gargalos ficassem em evidência.

O Gestor Público bem preparado analisaria as mudanças ocorridas e facilmente identificaria o fator chave para aqueles novos gargalos. Mas o Gestor Público despreparado responderia reativamente tentando reprimir a unidade que agora se tornara mais eficiente.

Não é difícil imaginar como termina a nossa história de ficção. Para finalizar e fixar o conceito, vamos colocar lado a lado os dois modelos: Centralização x Autonomia com Responsabilidade.

alea1

afr.afonso@gmail.com

PERFIL e ARTIGOS de ALEXANDRO AFONSO

NOTA: O BLOG do AFR é um foro de debates. Não tem opinião oficial ou oficiosa sobre qualquer tema em foco. Artigos e comentários aqui publicados são de inteira responsabilidade de seus autores.

Tags:

2 Comentários to “Gestão de Pessoas: o fracasso inevitável da Centralização”

  1. Bom texto. Descreveu o que está praticando na DRT8 .

PARTICIPE, deixando sua opinião sobre o post:

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: