João Fiscal e a Quebra-gelo

Jefferson Valentin*

João acordou, naquela manhã, mas permaneceu na cama por uns dez minutos olhando para o teto e pensando: “tenho que ir para aquela M.!” Nunca em sua vida profissional passara por algo semelhante: depressão pré-trabalho. Sempre gostou muito de trabalhar, mas como poderia gostar de trabalhar num local onde não era valorizado e tinha que desempenhar atividades aquém da sua capacidade técnica?

Chegando ao trabalho resolveu tomar um café com seu amigo Chico. Chico era o AFR que fazia o café mais forte na DRT e era disso que João estava precisando.

“Bom dia, Chico, como vai? Posso tomar um pouco do seu café?” João percebeu que Chico estava cabisbaixo, com um olhar triste.

“É… bom dia, João. Pode tomar o café.”

“O que você tem, Chico. Que desânimo é este?”

“João, esse mês fez 10 anos que eu assumi como Agente Fiscal de Rendas. Foi um dos dias mais felizes da minha vida… Eu sou nascido e criado em Diamantina, região do Jequitinhonha, cidade de Juscelino Kubitscheck de Oliveira. Tive uma infância difícil, meu pai morreu cedo e minha mãe trabalhou muito para me dar condições para que eu estudasse e pudesse almejar uma vida melhor. Eu estudei muito e toda vez que eu estava cansado ou me desanimava um pouco eu me lembrava da minha mãe trabalhando duro e eu pensava que um dia eu teria condições de dar uma vida melhor para ela. Um dia eu conseguiria retribuir pelo menos uma milésima parte do que ela fez por mim…”

“Estudei, fiz curso superior, pós-graduação, MBA, estágio no exterior. Prestei o concurso mais difícil da carreira mais valorizada da área fiscal do país e passei. Fiquei muito feliz no dia em que saiu o resultado, enfim eu poderia realizar meu sonho…

Quando recebi o primeiro salário, peguei minha mãe e a levei a uma empresa de plano de saúde: “Mãe, você castigou a sua saúde para me possibilitar uma condição melhor de vida e hoje eu me sinto um homem realizado porque vou poder te ajudar a cuidar da saúde que ainda te resta”. Minha mãe me abraçou e me deu um beijo. Eu não pude dizer mais nada porque chorava copiosamente…”

“Dois anos depois, porém, inexplicavelmente, criaram uma lei que congelaria meu salário e ele está congelado desde então. Para me ajustar aos efeitos da inflação fui cortando gastos. Primeiros os supérfluos e, depois que eles acabaram, fui diminuindo meu padrão de vida, restaram apenas os gastos essenciais como a prestação da minha casa, a escola dos meus filhos, supermercado, etc. No começo deste ano vendi meu carro e comprei um popular, usado. Quando o governo decidiu simplesmente não pagar mais a Participação nos Resultados, remuneração esta prevista em lei, não soube mais o que fazer. Sempre vivi exclusivamente do meu salário e chamei minha família para mais uma reunião para tentarmos ver como poderíamos cortar mais gastos. Minha mãe olhou pra mim e disse:” “meu filho, eu tenho umas economias, eu consigo pagar alguns meses do plano de saúde, deixa que eu pago.”

“Eu me senti o pior homem do mundo. Deu-me vontade de voltar para Diamantina, fracassado. Senti que perdi minha dignidade. Um homem que perde sua dignidade não tem mais nada a perder e um homem que não tem mais nada a perder é um homem perigoso!”

Sem saber o que dizer, João se limitou a fazer um gesto com a mão e saiu.

Pensando em refrescar sua cabeça, João se lembrou de Ronaldão, um AFR Assistente do Delegado que havia sido o encarregado da operação “Quebra-gelo” na DRT. Ele não conhecia muito pormenorizadamente a operação, mais tinha ouvido maravilhas a seu respeito, então foi procurar Ronaldão.

Ronaldão era um AFR famoso na DRT por ser extremamente competente, minucioso, profundo conhecedor das leis e das normas que regem sua atividade. Era grande, meio calvo, usava óculos de aro vermelho e tinha uma certa desordem fonoarticulatória, a famosa língua presa.

João entrou na sala de Ronaldão e sentiu um calafrio, pois o ar condicionado (sim, na sala dele havia ar condicionado) estava ligado numa temperatura muito baixa. A decoração da sala era intrigante: havia um quadro com uma imagem da queda do muro de Berlin, outro com uma foto de uma mulher (mais tarde João descobriu que era Barbra Streisand) e outro com o símbolo do São Paulo Futebol Clube. Ronaldão gostava de trabalhar ouvindo música e tocava, ao fundo, Let it go, de Demi Lovato.

“Ronaldão, bom dia! Fiquei sabendo que você fora o responsável pela operação “quebra-gelo” aqui na DRT, fiquei curioso e gostaria de conhecer essa operação um pouco melhor, quem sabe não é de uma atividade assim que estou precisando para me motivar. Ando meio desanimado com as tarefas que tenho desempenhado aqui na fazenda, não estou aguentando mais…”

“Vofê aguenta, João, como dizia Adoniran Barboza: Deus dá o frio conforme o cobertor! Mas vamos lá, o que você prefisa? Quer uma explanafão geral fobre a operafão? Vamos lá:”

“João, a operafão “quebra-gelo” ocorreu em algumas etapas definidas em planos de trabalho, entre 2012 e 2015. Foram felecionados contribuintes com base em critérios definidos a partir de notas fiscais eletrônicas emitidas e refebidas e GIAs e GARES declaradas ou não e pagas ou não. A FDT foi afionada para visitar os estabelefimentos e verificar se existiam de verdade. Quando constatado que os estabelefimentos não estavam em atividade no local indicado, foram feitos os PAC (Profedimento Administrativo de Cafafão) ou PCN (Profedimento Administrativo de Constatafão de Nulidade de Inscrição), conforme o caso. Na época ficamos na dúvida fe deveríamos autuar os destinatários, mas uma das fases da operafão teve o objetivo de glosar os créditos junto aos destinatários das mercadorias. A operafão tinha como objetivo, também, obter subfídios para uma potencial automatizafão da suspenfão preventiva da inscrifão estadual utilizando DataMining.”

“Ronaldão, foi feito algum trabalho conjunto com o setor de inteligência para pegar os reais responsáveis por vender nota fiscal fria?”

“Não fei!”

“Estão coletando dados desde 2012. Em que estado está o processo de automatização do cancelamento das inscrições? Foram feitas análises comportamentais ou identificação de tendências para tentar minimizar que novos casos ocorram?”

“Não fei! Não fei!”

“Foram criadas rotinas permanentes de monitoramento das novas inscrições utilizando mais critérios de seleção como valor de saídas em relação ao valor de entradas ou em relação ao capital social? Foi feito monitoramento de contadores ou sócios que, eventualmente, apareçam em várias empresas emissoras de notas frias para verificar futuras novas inscrições? Foram verificados quais setores de atividade econômica em que mais problemas ocorreram, por qual motivo, e estudadas alterações na legislação desses setores?”

“Não fei! Não fei! Não fei!”

“Eu sempre achei os procedimentos de PAC, PCN, inidôneos e afins muito burocráticos e lentos. Algo foi feito para simplificá-los e torná-los mais ágeis?”

“Olha João, até foi, mas a imprefão que tenho é a feguinte: imagine um quadro de energia, daqueles cheios de fios. Um eletrifista vem e faz uma gambiarra, daí vem outro eletrifista e puxa outro fio e faz outra gambiarra, aí vão fe acumulando as gambiarras até chegar num ponto em que vofê olha para o quadro de energia e não confegue ver mais pofibilidade de torná-lo rafional. O melhor a fe fazer, na minha opinião, feria refazer tudo, da legislafão aos professos de trabalho.”

“É… Ronaldão, valeu! Mas acho que ainda não foi dessa vez que encontrei uma atividade que me instigasse, na Sefaz. Estou precisando esfriar a cabeça…”

“Já está no fim do expediente, vamos fair para tomar uma gelada!”

“Não, obrigado Ronaldão, agradeço o convite…”

“Vai me dar um gelo?”

“Estou com um pouco de fome. Acho que vou passar na padaria e comer alguma coisa, talvez um misto…”

“Frio?”

“Quente!”

Efa é uma história de ficfão, qualquer femelhança com nomes, pefoas, fatos ou fituafões da vida real terá fido mera coinfidência.

* Agente Fiscal de Rendas – SP, formado em Letras pela Unesp e em Ciências Contábeis pela Universidade Católica Dom Bosco

NOTA: O BLOG do AFR é um foro de debates. Não tem opinião oficial ou oficiosa sobre qualquer tema em foco.
Artigos e comentários aqui publicados são de inteira responsabilidade de seus autores.

6 Comentários to “João Fiscal e a Quebra-gelo”

  1. Parabéns pelo artigo. Essa é a atual realidade nossa. Só o governo não enxerga isso.

  2. Jeferfão, não parefe fer uma hiftória de ficfão!

  3. Parabéns, como fempre!! kkkkkk

  4. Diamantina. Cidade que sai gente importante hein! Cidade do Presidente Juscelino Kubitschek e Chica da Silva. Pessoas que fizeram a diferença. Boa publicação para refletir e se inspirar.

  5. Num tá contente, presta outro concurso simples assim. muito feio ficar se lamentando quando o pais tem que viver com salario mínimo.
    é irritante.

PARTICIPE, deixando sua opinião sobre o post:

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: