Os mais iguais

João Francisco Neto

O mundo sempre foi injusto com os homens (na verdade, muito mais injusto com as mulheres). Com o advento da democracia, fixou-se a noção de que a igualdade entre as pessoas seria o seu principal pilar de sustentação. Entretanto, passados vários séculos, a injustiça e a desigualdade se perpetuam, por mais que existam direitos que supostamente assegurem a igualdade. A bem da verdade, a história humana pode ser traçada a partir da incessante busca pelo poder que, depois de conquistado, torna o seu detentor “mais igual” do que os demais.

Este e outros aspectos da natureza humana foram magistralmente retratados pelo escritor inglês George Orwell (1903-1950), no livro “A Revolução dos Bichos” (Animal Farm), publicado em 1945. Trata-se de uma fábula, em que animais representam seres humanos, para descrever uma alegoria dos mais diversos traços do comportamento humano, como o autoritarismo, a bondade, a crueldade, a ganância, a ânsia pelo poder, a corrupção, a ingenuidade, a indignação, o egoísmo, a falsidade, e a traição, entre outros. Na verdade, é uma sátira inspirada na Revolução Comunista Russa, com seus personagens mais importantes representados por animais.

A história se passa em uma fazenda em que o proprietário passa a tratar os animais de forma dura e cruel. Um porco velho e sábio, chamado de Major, reúne os animais da fazenda e expõe um plano para acabar com a opressão; porém, ele morre em seguida. Mas, o plano é levado em frente por outros dois porcos, também muito sábios, Napoleão e Bola de Neve. Com efeito, os bichos se revoltam, tomam o poder da fazenda, e passam a viver de forma harmoniosa, de acordo com uma nova filosofia, o animalismo.

Os porcos, tidos como os animais mais sábios, elegeram os sete mandamentos fundamentais: 1º) Qualquer coisa que ande sobre duas pernas é inimigo; 2º) Qualquer coisa que ande sobre quatro pernas, ou tenha asas, é amigo; 3º) Nenhum animal usará roupas; 4º) Nenhum animal dormirá em cama; 5º) Nenhum animal beberá álcool; 6º) Nenhum animal matará outro animal; e 7º) Todos os animais são iguais”. Por algum tempo as coisas correram bem, mas não demorou muito para que os porcos líderes, tomados pela ambição, passassem a almejar mais poder do que já detinham.

Em pouco tempo, ficaram cada vez mais parecidos com os humanos, e Napoleão, depois de expulsar Bola de Neve, assume o poder absoluto – que corrompe absolutamente! Além de passar a exigir muito trabalho dos outros animais, alterou os mandamentos do animalismo, principalmente os de nº 4 a 7, que ficaram assim: 4º) Nenhum animal dormirá em cama, com lençóis; 5º) Nenhum animal beberá álcool em excesso; 6º) Nenhum animal matará outro animal, sem motivo; e 7º) Todos os animais são iguais, mas alguns são mais iguais que os outros (no caso, somente os porcos).

Nessa “nova” fase da revolução, os porcos mais sabidos trataram de adaptá-la a seus interesses próprios. Infelizmente, assim agem todos os que se encantam com o poder, sejam eles porcos ou humanos: tornam-se “mais iguais” que os outros. Esse fenômeno revela-se por excelência nos quadros da administração pública, que, ironicamente se rege pelo princípio de impessoalidade: muitos servidores, conforme vão galgando postos e se encastelando nas torres do poder, passam à curiosa (e lamentável) condição de “mais iguais” que os outros.

jfrancis@usp.br

Agente Fiscal de Rendas aposentado, mestre e doutor em Direito Financeiro (Faculdade de Direito da USP)

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3 Comentários to “Os mais iguais”

  1. Este artigo retrata muito bem o exercício da democracia nos dias de hoje, pois, há grande quantidade de porcos no poder que pensam que são mais iguais que os outros e esse comportamento corrompe o sistema e sufoca o povo que fica calado, sem força para grunhir como outros animais que somos.

  2. Não só a democracia nos dias de hoje, meu caro colega Sebastião Viana, se olharmos para a estrutura da Secretaria da Fazenda vamos encontrar muitas semelhanças. É possível encontrar diversos “animais” que se pensam “mais iguais que os outros”.

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