Gestão Pública: como destruir a motivação ao trabalho

Alexandro Afonso

“Naquele tempo a gente só se preocupava em trabalhar.”
(de um Auditor Fiscal sobre o tempo em que os “pontos eram fechados”)

Propósito é o mais potente motivador humano. Mas o que significa exatamente esse tal “propósito”? Dizemos que “temos um propósito na vida” quando nos referimos a algo que desejamos fazer e do qual nos orgulhamos. Os pais dizem que a felicidade dos filhos é seu propósito de vida, um jovem diz que deseja “deixar sua marca no mundo”, um idealista com seu desejo de mudança que “quer fazer um barulhinho no universo”. Propósito é aquilo que dá alegria e orgulho a quem deseja fazer algo, é a alavanca da motivação intrínseca, aquilo que dá recompensas automáticas e internas ao próprio indivíduo.

Qual é o propósito principal de um Auditor Fiscal de São Paulo?
(já abandonei o atual termo agente fiscal, estou olhando para o futuro)

Otimizar a arrecadação tributária com justiça fiscal. Está escrito no Planejamento Estratégico.

O conceito de justiça é um dos grandes motivadores humanos. Quando o propósito é garantir justiça há possibilidades inúmeras aos líderes para a motivação de suas equipes. A tarefa fica mais fácil porque ao andar na direção da garantia da justiça ativa-se automaticamente a motivação intrínseca e nada de esforço adicional exterior é necessário para manter as pessoas com comportamento alinhado aos objetivos da instituição. Então por qual motivo há tantos Auditores Fiscais desmotivados ao trabalho?

 Se um sistema de controle e micro gerenciamento é institucionalizado através de pontuação por atividade, o propósito passa a ser fazer pontos enquanto agrada a pessoa responsável por assinar o relatório.”

As razões são várias. Porém, o sistema de excesso de controle e micro gerenciamento é o mais potente desmotivador humano já inventado até hoje. Ele funciona tão bem para destruir a alegria de trabalhar porque atinge ao mesmo tempo três pilares da motivação humana: o propósito, a autonomia e a busca por excelência.ale1

Após uma longa sessão de micro gerenciamento um Auditor Fiscal não tem mais o propósito de otimizar a arrecadação tributária com justiça fiscal. O objetivo passa a ser recuperar o controle, a sua autonomia, enquanto luta para não se tornar um mero robô de luxo, ter o poder de usar o seu cérebro para tomar as decisões que aparecem à sua frente.

Com sessões intensas de micro gerenciamento sem possibilidade de escapar aciona-se a “desesperança aprendida” (Learned Helplessness). A partir desse ponto o propósito que era buscar otimizar a arrecadação com justiça passa a ser atender aos anseios e medos do chefe micro gerenciador ou pelo menos não desagradá-lo. Neste ponto a dor foi absorvida psicologicamente e tudo o que se tem é uma jaula escura e fria com choques constantes, mas toleráveis.

Se um sistema de controle e micro gerenciamento é institucionalizado através de pontuação por atividade, o propósito passa a ser fazer pontos enquanto agrada a pessoa responsável por assinar o relatório. Justiça, otimização de arrecadação ou atendimento à população que o emprega e “dá de comer à sua família” ficam em segundo plano.

O descolamento do propósito é feito pelo sistema de gestão e não pela natureza humana. Cabe, claro, aos gestores entender essa natureza e modelar o sistema para que se mantenha a vinculação dos propósitos dos Auditores Fiscais aos da instituição. Essa fundamentalmente é a função de um gestor, administrador, gerente, diretor, etc. Isso é “fazer gestão de pessoas”.

Cada ser humano que nasce e chega à fase adulta deseja sentir-se útil, sentir que controla sua própria vida e toma decisões sobre seu destino. Um adulto sai da casa dos pais, casa-se ou não, tem filho ou não, viaja pra China ou pro Canadá, aprende alemão, japonês ou se mantém apenas com sua língua nativa. São tantas escolhas e decisões que um ser humano adulto toma que a ideia do micro gerenciamento torna-se absurda por natureza.

Sempre me intrigou descobrir a razão pela qual uma pessoa se sente confortável em determinar cada passo que outra pessoa dará. Mas até hoje não consegui entender a razão para micro gerenciar um adulto. Se a sociedade permite que os pais eduquem por si só e sem tutela do Estado os seus futuros cidadãos, como alguém pode chegar à conclusão que aquele(a) adulto(a), pai ou mãe responsável pelo futuro de seu país (os filhos), não tem responsabilidade para decidir se deve ou não aprofundar-se em uma auditoria? O mesmo se aplica àqueles que não se tornam pais porque, afinal, tomaram essa decisão sozinhos e também estão sendo responsáveis pelo futuro.

Se até a criança deseja ser livre e tomar suas próprias decisões para buscar seu propósito na vida, o que estamos fazendo ao tolher a própria condição humana de adultos competentes e inteligentes…?”

Uns podem dizer que os superiores estão de posse de mais informações e, portanto, mais preparados para tomar decisões. Oras, se este é o caso há que se verificar a razão para que esteja ocorrendo esse afunilamento das informações. Caso não haja razão grave justificável como operações que precisam de sigilo até certo ponto para manter o fator surpresa, o problema está no contingenciamento da informação. O micro gerenciamento seria uma solução para um problema que não deveria existir.

Dizem por aí que informação é poder, nada mais lógico do que dar poder a quem executa o trabalho. Por isso a transparência é um princípio tão valioso: porque ele maximiza a eficiência. Outros dizem que o problema são os corruptos (e são realmente um problema gravíssimo). Pois que se fortaleça a Corregedoria através da escolha do nome mais indicado pela própria classe que a compõe enquanto se cria uma estrutura que previna que a corrupção se perpetue identificando corruptos com a velocidade de um raio e os extirpando da instituição.

ale2O que dizer então de dar pontos para fazer uma atividade? Dez pontos pra lavar o quintal, cinco pra catar o cocô do cachorro, vinte se fizer a lição de casa. Perde 1 ponto por questão que errar. Cada ponto vale R$ 0,10.

Oras, isto não parece a forma como pais tratam suas crianças ainda imaturas? Parece consenso que criança é imatura porque chegou recentemente ao mundo, está se desenvolvendo e por isso precisa de micro gerenciamento. Mas até esse ponto já começa a ser questionado pela ciência comportamental. A questão não está no fato de serem imaturas, mas a forma de torna-las maduras. Deve-se tutelar 100% de suas ações ou permitir que descubram por si só tomando mínimas ações para garantir sua segurança? Você se surpreenderia com os resultados de “fora da caixa”.

Agora vejamos. Por qual motivo, razão ou circunstância deve-se tutelar 100% das ações de uma pessoa adulta? Se até a criança deseja ser livre e tomar suas próprias decisões para buscar seu propósito na vida, o que estamos fazendo ao tolher a própria condição humana de adultos competentes e inteligentes o suficiente para superar milhares de profissionais em concurso público duríssimo?

Anos atrás a Sefaz-SP se submeteu a uma pesquisa efetuada por uma revista sobre os melhores lugares para se trabalhar. As poucas informações que vieram a público à época mostravam que a instituição sequer obteve nota para participar da fase seguinte, ou algo desse tipo, pois a memória me falha. Lembro-me apenas de um fracasso completo e merecido.

A motivação dos servidores levantada através de pesquisa bem desenhada é indicador direto de resultado da qualidade de gestão de um órgão. Ter indicadores é bom, mas buscar as causas dos problemas que eles mostram e resolve-los não tem preço.

Se a Secretaria da Fazenda do Estado de São Paulo é o cemitério da motivação que a pesquisa mostrou, será que a famosa “Tabela de Produtividade do Externo” não é uma das principais causas?

Uma coisa é certa. Sem questionar os métodos não é possível sair do fundo do vale das trevas motivacional. A dúvida e o inconformismo são os primeiros raios de luz, os primeiros raios de esperança.

Que o sol venha se debruçar sobre os Auditores Fiscais do Estado de São Paulo.

afr.afonso@gmail.com

PERFIL e ARTIGOS de ALEXANDRO AFONSO

NOTA: O BLOG do AFR é um foro de debates. Não tem opinião oficial ou oficiosa sobre qualquer tema em foco. Artigos e comentários aqui publicados são de inteira responsabilidade de seus autores.

One Comment to “Gestão Pública: como destruir a motivação ao trabalho”

  1. Parabéns, Alexandro! Brilhante texto! A Sefaz tolhe o poder de decisão dos AFRS e depois os chama de acomodados.

PARTICIPE, deixando sua opinião sobre o post:

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: