A desunião europeia

João Francisco Neto

A recente decisão do povo britânico de sair da União Europeia caiu como uma bomba sobre o mundo todo, deixando milhões de pessoas perplexas e ansiosas pelas consequências que poderão advir. O que hoje conhecemos por “Europa” praticamente iniciou-se a partir da queda do Império Romano, no distante ano de 476, que deu origem a vários estados nacionais como Itália, Alemanha, França, Espanha, entre outros. Mas, para se chegar à definição das atuais fronteiras muito sangue foi derramado, em séculos e mais séculos de guerras infindáveis, invasões, massacres, perseguições e fanatismo religioso. A paz era um artigo raro por aquelas bandas.

Depois de tantos conflitos, as coisas pioraram no início do século 20, com a eclosão da 1ª Guerra Mundial (1914-1918), que deixou um saldo de 10 milhões de soldados mortos, além de outros tantos milhões de civis. Como as demais, foi uma guerra sem vencedores. Contudo, o pior ainda estava por vir: como desdobramento daquele conflito, o mundo assistiria à deflagração da 2ª Guerra Mundial. Agora, com armamento mais moderno, a matança aumentaria muito. Ao final da guerra, em 1945, a Europa estava inteiramente arrasada.

Diante da necessidade de reconstrução, os países europeus passaram então a discutir uma saída que assegurasse a paz duradoura e promovesse o crescimento daquelas nações, que até então viviam em frequentes guerras. A saída foi a assinatura de um importante acordo – o Tratado de Paris, de 1951 -, que criou a Comunidade Econômica do Carvão e do Aço, composta por seis países: Bélgica, Luxemburgo, Holanda, Alemanha, França e Itália. O carvão e o aço tinham um papel fundamental na indústria da época, daí a razão pela qual o acordo ter sido elaborado em torno desses produtos. Esse tratado foi o “marco zero” da União Europeia. Em 1957, os mesmos seis países firmaram outro acordo – o Tratado de Roma -, que criou a Comunidade Econômica Européia. Com o tempo, a maioria dos países europeus foi aderindo a esses acordos, até que, em 1992, criou-se a União Européia, por meio do Tratado de Maastricht (cidade holandesa onde o acordo foi assinado).

Dito assim, parece ter sido simples; mas não foi. Na verdade, foi preciso que países derrotados se unissem aos vencedores, e que antigos e arraigados ódios e nacionalismos fossem superados, para a construção de um espaço em que todos tivessem interesse comum na sua preservação, evitando-se assim a possibilidade de novas guerras no continente europeu. Guerras não houve mais, porém a crise econômica que assola a União Européia vem acentuando as diferenças entre os países e fragilizando a união.

Há algum tempo, a crise da Grécia submeteu a moeda comum – o euro – ao seu mais duro teste. Mais recentemente, a onda de migrantes que chegam aos milhares da Síria e de outros países despertou antigos nacionalismos dos povos europeus. Neste cenário sombrio, não faltam rumores de países que pretendem abandonar o barco da União Europeia. Nesse sentido, o Reino Unido acaba de dar o seu primeiro passo.

jfrancis@usp.br

Agente Fiscal de Rendas, mestre e doutor em Direito Financeiro (Faculdade de Direito da USP)

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