Cidades cenográficas

João Francisco Neto

Há pouco, o desabamento de um trecho de uma ciclovia na cidade do Rio de Janeiro veio suscitar a discussão de vários temas ligados às questões de urbanização. Como se sabe, o Rio de Janeiro será a sede dos Jogos Olímpicos que estão prestes a se iniciar; por isso, a cidade se transformou num verdadeiro canteiro de obras, algumas delas de duvidosa utilidade, sem falar na falta de segurança, como se acabou de ver. Em determinados contextos, como no caso de Olimpíadas e Copas do Mundo, é de fato necessária a realização de muitas obras, para abrigar os eventos. Porém, em meio às obras que realmente serão utilizadas, não é raro que sejam erguidas outras, que são verdadeiros “elefantes brancos”, ou seja, muito bonitas, mas que, no fundo, não servem para nada.

Os estudiosos das questões urbanísticas criaram uma expressão para designar as localidades em que muitas obras e equipamentos urbanos são edificados nem tanto pela sua necessidade ou funcionalidade, mas apenas para o simples embelezamento do espaço urbano: são as chamadas “cidades cenográficas”.  Trata-se de uma referência às falsas cidades que são erguidas para filmagens: parecem reais, são muito bonitas, porém não têm outra utilidade a não ser essa mesma.

O maior exemplo de “cidade cenográfica” no Brasil é Brasília, uma cidade planejada para ser arquitetonicamente bonita, ainda que não funcional. Na verdade, ela foi projetada para exibir suas funções cenográficas, ou seja,  demonstrar a modernidade que embalava o Brasil da época, além de abrigar a estrutura dos poderes da República, estrategicamente localizados bem distantes dos grandes centros urbanos. Gilberto Freyre costumava dizer que o presidente Juscelino Kubitschek, ao decidir pela construção de Brasília, teria agido como um faraó: chamou dois arquitetos (Oscar Niemeyer e Lúcio Costa) e lhes deu carta branca para levantar a nova capital, sem convocar mais ninguém para opinar sobre o assunto.

Além disso, os grandes empreendimentos imobiliários (parques, arenas olímpicas, etc.), quando realizados nas proximidades de áreas habitacionais empobrecidas e degradadas acabam tendo outras consequências: ao “enobrecer” todo o entorno, os moradores locais são praticamente expulsos para localidades mais distantes, para dar lugar a um novo público, disposto a pagar o preço agora elevado às nuvens pelo efeito das obras no local. Esse fenômeno recebe o curioso nome de “gentrificação” (“enobrecimento” da região e seu entorno), utilizado pela primeira vez em 1964, por uma socióloga inglesa (Ruth Glass) que pesquisava as alterações urbanísticas em Londres. Por sinal, um dos mais significativos exemplos de gentrificação viria a ocorrer na própria Londres, por força das obras erguidas para os Jogos Olímpicos de 2012.

O grande problema que surge nesses processos de revitalização de áreas urbanas não é, obviamente, a valorização dos espaços, mas sim a possibilidade da realização das obras consideradas elefantes brancos, simplesmente para faturar comissões e propinas, muito comuns em empreendimentos dessa natureza. Portanto, cabe à sociedade civil ficar de olhos bem abertos para promover os questionamentos acerca da viabilidade, da necessidade e da utilidade de muitas obras que, a princípio, parecem ser de interesse da comunidade. Tempos depois, a população descobre que aquilo era apenas uma “cidade cenográfica”. Infelizmente, aí já será tarde. Obviamente, subjacente a tudo sempre estão os interesses nada republicanos de governantes e grandes empresas, que se juntam nessas empreitadas, para tomar de assalto os recursos do País.

No Brasil, um grande exemplo de cidades cenográficas são os 12 estádios construídos ou reformados para abrigar os jogos da Copa do Mundo. Passados dois anos, apenas um deles registra ocupação superior a 50% (Arena Itaquera). Num país como o Brasil, carente de tanta coisa, é um escândalo que o governo tenha desperdiçado bilhões de reais para erguer esses verdadeiros elefantes brancos, cuja maioria hoje só serve pelos seus efeitos cenográficos, ou seja, para embelezar a paisagem.

jfrancis@usp.br

Agente Fiscal de Rendas, mestre e doutor em Direito Financeiro (Faculdade de Direito da USP)

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