Política, intrigas e delações

João Francisco Neto

Os avanços da “Operação Lava Jato” têm levado pânico e pavor para muita gente poderosa que até há pouco tempo se achava acima do bem e do mal. Afinal, por aqui era comum que a justiça fosse pautada segundo uma conhecida regra proveniente da República Velha: “Aos amigos, tudo; aos inimigos, a lei”. Ultimamente, a tensão aumentou muito em virtude do ambiente reinante de delações premiadas, intrigas palacianas e “vazamentos seletivos” de notícias para a imprensa.  Isso nos traz à memória o “Caso Watergate” e toda a rede de intrigas, delações e investigações que, no princípio da década de 1970, resultou na renúncia de Richard Nixon, então presidente dos Estados Unidos.

O escândalo se iniciou com a prisão de um grupo de pessoas que tentavam instalar equipamentos de escuta telefônica ilegal na sede do Partido Democrata em Washington, no Edifício Watergate. A tentativa de espionagem foi atribuída ao presidente Nixon e à cúpula do Partido Republicano, e que, segundo consta, tinha como finalidade reunir elementos para provar que a campanha eleitoral dos democratas estaria sendo financiada por cubanos.

Corria o ano eleitoral de 1972 e, a princípio, o caso Watergate não chamou muito a atenção do público, que ainda não sabia dos detalhes mais comprometedores. Mas, eis que dois jovens jornalistas do jornal “The Washington Post” – Bob Woodward e Carl Bernstein – iniciaram uma série de investigações que logo estabeleceram um claro vínculo dos fatos com a Casa Branca. As investigações eram “abastecidas” por revelações de um informante secreto, a quem a imprensa deu o codinome de “Garganta Profunda”. À medida que as notícias vazavam, a situação política de Nixon se agravava, a ponto de levá-lo a pedir a renúncia da presidência da República, ameaçado que estava de perder o cargo por meio de um processo de impeachment.

Na época, os Estados Unidos estavam atolados na Guerra do Vietnam, mas, apesar de tudo, Nixon vinha fazendo uma boa administração, tendo inclusive sendo reeleito para o segundo mandato, que não conseguiu completar por causa do escândalo de Watergate.

Mas, voltemos ao “Garganta Profunda”. Durante o desenrolar do “Caso Watergate” ninguém nunca soube a verdadeiro nome dessa fonte enigmática, cujas informações importantíssimas acabaram derrubando o presidente Nixon. Mais de trinta anos depois de Watergate, o próprio informante, aos 91 anos de idade, veio a público para revelar a sua identidade: era ninguém menos do que Mark Felt, diretor-adjunto do FBI na época do escândalo.  Nunca se soube exatamente quais foram as motivações que o levaram a colaborar com os repórteres; o consenso é que ele teria se sentido traído pelo presidente Nixon, que preferiu nomear alguém de fora para chefiar o FBI, quando o sucessor natural era o número 2, o próprio Mark Felt. Moral da história: em política nunca se deve subestimar o potencial destruidor de um parente contrariado, de uma mulher traída, ou de um subordinado magoado. O efeito pode ser catastrófico. Já vimos isso no Brasil, e podemos ver novamente.

jfrancis@usp.br

Agente Fiscal de Rendas, mestre e doutor em Direito Financeiro (Faculdade de Direito da USP)

ARTIGOS de JOÃO FRANCISCO NETO

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