Votar com os pés

João Francisco Neto

“Hoje, no Brasil, o que vemos é uma expressiva fuga de talentos”

“Votar com os pés”; eis aqui uma curiosa expressão que, a princípio, pode nos conduzir a um entendimento equivocado. Na verdade, quando os cidadãos, descontentes com a situação política e econômica local, optam por viver em outra região ou país, estão simplesmente “votando com os pés”. Trata-se de um fenômeno que sempre existiu, muito bem exemplificado pela grande marcha de trabalhadores que se deslocaram para outros estados nos anos que se seguiram à grande depressão provocada pela quebra da Bolsa de Valores de Nova York, em 1929.

Esse assunto foi objeto de estudo do economista norte-americano Charles Tiebout (1924-1968), que expôs as vantagens de um sistema federativo descentralizado, em que o cidadão possa optar por viver na região que melhor atender às suas necessidades. Hoje, no Brasil, o que vemos é uma expressiva fuga de talentos e de empreendedores que, descontentes com a situação atual, buscam outros países para trabalhar e viver, dentro de padrões mínimos de decência e boa oferta de serviços públicos. As notícias da imprensa nos dão conta do crescimento ininterrupto do número de profissionais liberais, empreendedores, médicos, jornalistas, entre tantos outros, que, dia a dia, embarcam para outros países, como o Canadá e a Austrália, que abrem suas portas para receber talentos e profissionais qualificados, de qualquer nacionalidade.

São pessoas que nada mais esperam do País, cansadas que estão de ver tanta roubalheira, corrupção (aliás, o Brasil acabou de cair 7 posições no ranking mundial da corrupção), desrespeito, além de uma carga tributária abusiva e insuportável. Houve um tempo em que no Brasil o povo todo nutria uma forte esperança de que teríamos um futuro brilhante: era a época do chamado “País do Futuro”. O tempo passou, muita coisa mudou, mas aquele futuro promissor nunca chegou, e, pela situação atual, temos certeza de que tão cedo não chegará. Hoje, esse sonho se dissipou por conta do mar de ineficiência e da falta de oportunidades e perspectivas, principalmente para as gerações mais jovens, que acabam sendo, de certa forma, empurradas para fora do País. As migrações sempre foram uma alternativa para os tempos difíceis; o diferencial agora é a mudança do perfil das pessoas que procuram outros países para viver – hoje esse contingente é constituído por pessoas com boa qualificação profissional.

Assim, ao “votar com os pés”, o cidadão procura fixar residência num Estado que mantenha uma carga fiscal adequada à boa qualidade dos serviços públicos oferecidos por aquele Estado, tais como boas escolas, segurança para a família, transportes públicos eficientes, saúde, meio ambiente saudável, etc. Trata-se de um fenômeno que, obviamente, não se restringe ao caso brasileiro. Atualmente, na União Europeia (UE) há uma intensa movimentação de pessoas que, “votando com os pés”, saem à procura de um dos Estados-membros que lhes ofereça as condições desejáveis de vida. Os 28 países que compõem a UE vêm adotando políticas bem diferentes no que se refere à carga de impostos e à forma de financiamento dos gastos sociais, como a previdência, de forma que isso tudo acaba por desencadear um processo de migração tanto de pessoas quanto de capitais financeiros e de empresas, que saem em busca de melhores condições de crescimento, ou, muitas vezes, até de sobrevivência.

É isso aí: muitos jovens, cansados de votar em seguidas eleições e não ver nenhum resultado positivo, acabam “votando com os pés”, isto é, fazendo suas malas e partindo para lugares mais promissores.

jfrancis@usp.br

Agente Fiscal de Rendas, mestre e doutor em Direito Financeiro (Faculdade de Direito da USP)

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One Comment to “Votar com os pés”

  1. Excelente artigo, meu caro João! o povo brasileiro há muito tempo precisa aprender a “votar com os pés”, mesmo sem migrarem para outras regiões ou para outros países. precisamos votar com os pés deixando de acreditar nas promessas politiqueiras. Votar com os pés quando aprendermos declarar guerra contra todos aqueles praticantes de atos de corrupção. Votamos com os pés quando ficamos indignados com a situação de caos em que se encontra os setores da saúde, da educação, da segurança pública e da habitação, pois os recursos originários dos impostos pagos, pela sociedade constituída por gente de bem, são desviados pelos ralos da corrupção e da roubalheira. Os jovens também irão votar com os pés, quando deixarem de acreditar em políticos, quando aprenderem buscar outros meios de sobrevivência sadios em procedimentos democráticos não vinculados a seus votos, quer sejam facultativos ou não; Enfim, a sociedade civil brasileira vai votar com os pés quando se aperceberem de que acreditar na política do atual sistema (anti)democrático é perca de tempo e sacrifício de talentos em vão em prol de um futuro melhor inexistente na linha do horizonte imaginário. Enquanto não houver uma mudança radical na estrutura da política básica ou uma mudança do sistema político administrativo do Brasil, o povo e os jovens, de um modo geral, seguirão “votando com os pés” porque já não há mais esperança de melhoras a curto prazo.

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