Decadência da escola pública

João Francisco Neto

“O ensino tinha duas vertentes: uma para as classes populares, e outra, para os mais ricos e abastados”

Em 1889, com o advento da República, o Estado passou a desenvolver um projeto para a educação pública, um assunto que no período da monarquia nunca havia sido objeto de muitas preocupações. Os novos paradigmas republicanos fizeram com que a educação passasse a ser vista como um ideal de progresso para toda a sociedade, de forma igualitária. Logicamente, a ideia de igualdade ficaria só no papel, pois, no início, a escola pública viria para atender apenas a uma parte da população. E assim continuou por um longo período, pois não havia vagas para todos e tampouco vontade política para mudar aquela situação.

A partir do início do século 20, o projeto do Estado de São Paulo para o ensino público era grandioso: foram erguidos prédios majestosos para abrigar as escolas, os professores eram muito valorizados – recebiam boa remuneração e tinham grande prestígio social, tanto assim que alguns eram contratados até no exterior. Segundo a perspectiva positivista dos primeiros líderes republicanos, a escola era vista como um valor central da sociedade e, como tal, deveria ocupar construções imponentes e altivas.

Esse novo projeto viria para superar, de vez, a frágil estrutura escolar existente na época da monarquia, que não prestigiava a educação pública. Por todo o Estado, mas principalmente nos grandes centros, ainda hoje se pode constatar a imponência das antigas escolas (os ginásios e os grupos escolares). Os grupos escolares tinham essa denominação porque resultavam do agrupamento das antigas escolas isoladas. Em contraste com a grandiosidade dos prédios antigos, hoje as coisas mudaram bastante, pois não há muito tempo na capital paulista tínhamos até escolas de lata!

No Estado de São Paulo, a partir de 1890, o governo convocou o médico Caetano de Campos para reformular o ensino público, mediante a adoção das mais modernas técnicas pedagógicas da época. Caetano de Campos revelou-se um grande educador, e hoje dá o seu nome a um belo palácio na Praça da República (centro da cidade de São Paulo), construído em 1930, para abrigar uma escola estadual. Seguramente, o prédio da Praça da República é o maior exemplo da imponência e da grandiosidade das antigas escolas públicas paulistas. Atualmente, funcionam ali as dependências da Secretaria Estadual de Educação.

Mas, o novo projeto não previa apenas grandes construções; procurava-se implantar aqui novos modelos pedagógicos, para aperfeiçoar a alfabetização da população. Entretanto, toda essa revolução no ensino paulista não conseguia esconder o fato de que, no fundo, aquele novo projeto também sofria de um viés elitista. O ensino tinha duas vertentes: uma para as classes populares, e outra, para os mais ricos e abastados. Para o povo em geral, a ideia era que o ensino se limitasse aos quatro anos do ensino primário. Para prosseguir nos estudos, seria conveniente que o aluno mais pobre fosse, quando muito, direcionado para um curso profissionalizante.

Para os mais ricos, havia os ginásios, os colégios, e o ensino superior nas faculdades, que eram bem poucas. Nada disso era dito claramente, mas tudo era tão difícil para os mais pobres que não lhes restava outra saída a não ser limitar-se ao curso primário. Na verdade, grande parte da população não frequentava nenhuma escola. Quando conseguia concluir o curso primário, o aluno mais pobre se deparava com mais uma barreira para prosseguir nos estudos: o exame de admissão. Como não havia vagas para todos nos ginásios, era necessário fazer uma “seleção” por meio do tal do “exame de admissão”. Os que não eram aprovados começavam logo a trabalhar, e não se falava mais em estudo.

Nessa época, a escola pública era muito rigorosa e de excelente qualidade, embora limitada a poucos. Mais tarde, a partir das décadas de 1960/70, quando o ensino público se popularizou, a qualidade desceu muito. E, ao que tudo indica, ainda não parou de descer. Os saudosistas da excelência da antiga escola pública devem ter em mente o seguinte: aquela escola era de fato muito boa, mas servia somente a um pequeno grupo da sociedade. O Estado ainda tem um projeto de excelência em ensino; basta ver o caso das universidades estaduais (USP, Unesp e Unicamp), que, às duras penas, ainda conseguem manter um certo padrão. Infelizmente, no caso dessas universidades públicas paulistas a ideia subjacente continua a mesma: trata-se de um ensino reservado para poucos, inacessível para o povo em geral, que acaba tendo de se esforçar muito para pagar as pesadas mensalidades das “Unis” da vida, espalhadas pelo Brasil afora e de duvidosa qualidade de ensino. O grande desafio a ser vencido é proporcionar um ensino de alto nível para todos.

jfrancis@usp.br

Agente Fiscal de Rendas, mestre e doutor em Direito Financeiro (Faculdade de Direito da USP)

ARTIGOS de JOÃO FRANCISCO NETO

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3 Comentários to “Decadência da escola pública”

  1. O pior é que tudo isso tem um terrível fundo político. População analfabeta ou semi, é sinônimo de servilismo e pari-passo com isso é feudo dos “nossos” candidatos que, eleitos, só pensam em defender os seus interesses egoístas e, com isso, chegamos ao “hoje”. Aos bolsas-família e outras bolsas que elegem até presidente, juntando aí nessa massa de manobra, pobres, analfabetos, semi-analfabetos e preguiçosos, o que dá uma maioria folgada para eleição e reeleição. Consuma-se tudo isso na famosa base-aliada, menina de ouro, melhor, mina de ouro dos petralhas e asseclas, o que nos levou ao Brasil de hoje, para nossa grande infelicidade e desgraça.

  2. É Mariano, exatamente isso.

  3. Joáo Francisco Neto eu nascí no final da década de 1920, mais precisamente no dia 7/4/1925 no interior de São Paulo, Tive muito desejo de estudar, mas havia muita falta de escolas, e poucas vagas no Brasil naqueles tempos, e como sempre morei nas zonas rurais, não teve a menor oportunidade , como você descreveu no seu artigo DECADENCIA DO ENSINO PUBLICO exatamente porque o ensino tinha duas vertentes. Parabens Dr. João. Você que é feliz.

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