O dinheiro do povo

jfrancisconewJoão Francisco Neto

“Quando gastamos o dinheiro dos outros em favor de outras pessoas”

Nos últimos tempos, não se fala em outra coisa no Brasil: é a crise da economia, o baixo crescimento, a inflação crescente, a crise política, a alta do dólar, é o mar de lama da corrupção, entre tantos outros assuntos desagradáveis.  Em resposta a esses problemas, as autoridades do governo federal só apresentam uma solução: o chamado “ajuste fiscal”, para – somente agora – equilibrar suas despesas ao montante das receitas. Durante a campanha eleitoral, prometeu-se ao povo um mar de rosas, que nunca veio; em seu lugar, uma verdadeira tempestade de problemas se abateu sobre o povo, já tão sofrido. Como se não bastasse, o Brasil acabou perdendo o “grau de investimento” no mercado financeiro internacional. Seja lá o que isso for, o povo sabe que boa coisa não é.

E como chegamos a essa situação lamentável? Simples: durante anos, o governo – como a cigarra da fábula – gastou muito e gastou mal, pois o que não faltaram foram gordos recursos, decorrentes da abusiva carga de impostos que recai sobre a população. Mas, como tudo tem um limite, agora chegou a hora de pagar a conta, e, ao que se sabe, o governo não tem dinheiro suficiente para isso.

Por mais de dez anos, gastou-se como nunca neste País, sem se importar de onde vinham os recursos, e sem se recordar de um curioso ditado atribuído ao economista americano Milton Friedman (1912-2006): “não há almoço grátis”, pois alguém sempre paga a conta, para demonstrar que tudo o que fazemos ou ganhamos tem um custo, mesmo que, aparentemente, seja de graça. Muitas vezes, a conta chega bem mais tarde. Friedman, que recebeu um prêmio Nobel de Economia, era um intelectual respeitado – professor na Universidade de Chicago (EUA) –, porém dotado de bom-humor e de notável espírito prático.

Para demonstrar como os governos tendem a gastar mal os recursos que arrecadam dos cidadãos, Friedman listou as quatro principais formas de se gastar dinheiro. A 1ª se dá quando gastamos nosso dinheiro em nosso próprio favor; nesse caso, avaliamos muito bem o gasto e nos esforçamos para realizá-lo da forma mais eficiente e racional possível; afinal, sabemos quanto custou para ganhar esse dinheiro. A 2ª forma é quando gastamos nosso dinheiro para beneficiar outras pessoas: aqui, a conversa é outra, pois a tendência é medir muito bem esse gasto, que tende a ser menor do que no primeiro caso. A 3ª forma ocorre quando gastamos o dinheiro de outra pessoa em nosso favor, caso de um funcionário que viaja e terá suas despesas pagas pela empresa. Nessa hipótese, não temos tantos motivos para fazer economia; ao contrário, somos incentivados a escolher sempre o que acharmos melhor e, obviamente, mais caro do que aquilo que nós mesmos teríamos de pagar. Por fim, chegamos à 4ª forma, que é quando gastamos o dinheiro dos outros em favor de outras pessoas. Nesse caso, em geral, quem gasta não tem motivo algum para se preocupar nem com a qualidade e nem com o custo; afinal, nada sairá de seu bolso e nem será revertido em seu proveito.

Infelizmente, essa última modalidade é a forma clássica como os governos gastam o dinheiro proveniente dos impostos arrecadados. Aí esta a raiz da ineficiência do gasto público realizado pelos governos, que, a bem da verdade, não sabem dimensionar o valor do custo dos recursos arrecadados da população. Esta história vem de longe, pois uma das principais causas da Revolução Francesa (1789) foi justamente o exagero dos impostos e a insensibilidade dos governantes. Como vemos, por aqui, séculos depois, pouca coisa mudou, pois não são poucos os governantes que seguem gastando mal (e outros até roubando, e muito!), todos sem dar a mínima importância ao sofrimento do povo, que tudo paga e pouco recebe.

jfrancis@usp.br

Agente Fiscal de Rendas, mestre e doutor em Direito Financeiro (Faculdade de Direito da USP)

ARTIGOS de JOÃO FRANCISCO NETO

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2 Comentários to “O dinheiro do povo”

  1. Em qualquer dos casos, trata-se da honestidade moral do individuo que mexe com dinheiro. O Brasil sofre de uma epidemia cleptomaniaca desde os tempos da descoberta do ouro que continou com a esfomeada ganancia dos comerciantes e dos banqueiros, todos ladroes. Com estes lindos exemplos e salarios arrochados, cada tenta salvar-se como pode e o resultado: O PT e Lula que pagam o pato!

  2. João, sua análise está perfeita sobre a dimensão dos gastos do governo e a sangria que se faz na jugular da população e qualquer um que seja o representante no alto escalão do poder, revestido de qualquer uma das inúmeras sigla partidária, a situação vai continuar sendo a mesma, se não houver um basta exigido pelo povo que trabalha e suporta enorme garga tributária. Acho que, a partir dos anos de 1980, a situação do País agravou-se pela corrupção de todos os lados e em todos os meios da sociedade. É sabido que no exercício da política partidária, o eleitor acredita mais naqueles que fazem das mentiras cegas verdades e, por tudo isso, acho que se acabar com a reeleição partidária dos mandatários representantes do poder, poderemos vislumbrar alguma melhoria da situação caótica amenizando esse mar de lama em que o País se vê atolado.

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