A atualidade de Rui Barbosa

João Francisco Neto

“De quanto no mundo tenho visto, o resumo se abrange nestas cinco palavras: não há justiça sem Deus”

Há alguns anos, nas páginas do “Estadão” (edição de 20/03/2011), o ex-ministro Celso Lafer nos lembrava de um fato interessante: há noventa anos, em março de 1921, realizava-se mais uma cerimônia de colação de grau dos advogados formados pela Faculdade de Direito do Largo São Francisco, em São Paulo. Como naquele mesmo ano de 1921, comemoravam-se os cinquenta anos da formatura de Rui Barbosa, os formandos convidaram-no para paraninfo da turma. Rui Barbosa, que à época contava com mais de setenta anos de idade, encontrava-se muito adoentado em sua residência no Rio de Janeiro, não pode comparecer à cerimônia, mas mandou um discurso: a hoje célebre “Oração aos Moços”. A peça, que acabou se tornando um dos textos mais conhecidos do meio jurídico, contém um notável brado de indignação, que ecoa até nossos dias:

De tanto ver triunfar as nulidades; de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça. De tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar-se da virtude, a rir-se da honra e a ter vergonha de ser honesto”.

Rui Barbosa foi autor de inúmeras obras, desde poesias à ciência jurídica, passando pela política, pela filosofia, pela educação, entre tantas áreas em que era mestre; entretanto, costuma-se dizer que a ”Oração aos Moços” é o seu testamento político. Nessa obra de pouco mais de cinquenta páginas, Rui, do alto de sua vasta experiência de vida, sob o pretexto de falar aos jovens formandos, na verdade, resume todo o seu pensamento, em meio a certa dose de amargura e ressentimento. Afinal, um homem tão preparado como era, e após tantas lutas políticas, havia sofrido duas derrotas em eleições para a Presidência da República.

Ao lado de Castro Alves (1847-1871) e dos futuros presidentes Rodrigues Alves (1848-1919) e Afonso Pena (1847-1909), Rui Barbosa (1849-1923) formou-se aos vinte e um anos de idade, em 1870, no Largo São Francisco. Embora viesse a exercer inúmeros cargos elevados ao longo de sua vida, sempre se orgulhava de dizer que era “apenas um advogado”. Foi deputado, senador, ministro, conselheiro, diplomata, jurista, orador vibrante, jornalista, escritor, conferencista, um dos maiores abolicionistas, mas, sobretudo, um advogado. A cultura de Rui era tão vasta que até hoje o seu nome é sinônimo de sabedoria.rui-barbo

Rui Barbosa viveu num período de intensas e profundas mudanças no País: participou da campanha pelo fim da escravidão; viu cair a monarquia e assistiu ao nascedouro da República; foi o autor de uma reforma da lei eleitoral; e mais, foi praticamente o autor da Constituição Federal de 1891, que adotou a forma federativa por sua influência. Além disso, viveu quase todo o conturbado período da República Velha. Mais do que ninguém neste País, Rui foi um incansável batalhador das causas federativa e republicana e do primado da lei. Apaixonado pelos estudos, achava que, enquanto o povo não tivesse acesso a boas escolas, o País não se desenvolveria. Como se vê, ele também era profeta, pois o resultado desastroso da falta de boas escolas está aí para quem quiser ver. Embora fosse um homem do século 19, o pensamento de Rui Barbosa continua atualíssimo.

Um dos pontos altos da carreira de Rui Barbosa deu-se em 1907, quando foi convidado pelo Governo para chefiar a representação brasileira na Conferência de Paz, em Haia, na Holanda. O Brasil saiu engrandecido dessa Conferência, pois o mundo havia se curvado diante da assombrosa capacidade intelectual de Rui Barbosa. Com tudo isso, Rui nunca deixou de ser simples e até humilde certo ponto humilde, como são os grandes homens. Temente a Deus, defendia a superioridade moral da fé cristã sobre o ateísmo, e afirmava: “de quanto no mundo tenho visto, o resumo se abrange nestas cinco palavras: não há justiça sem Deus”. Por tudo isso, e muito mais, Rui Barbosa, embora fosse um homem do século 19, continua atual e necessário em pleno século 21.

jfrancis@usp.br

Agente Fiscal de Rendas, mestre e doutor em Direito Financeiro (Faculdade de Direito da USP)

ARTIGOS de JOÃO FRANCISCO NETO

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3 Comentários to “A atualidade de Rui Barbosa”

  1. João parabéns pela belíssima peça arquitetônica. Sempre é bom não perder a oportunidade de aprender algo mais. Obrigado.
    Alceu

  2. Estimado João, pela falência trágica da educação nesta terra é provável que sequer os estudantes de hoje da São Francisco saibam quem foi Rui Barbosa.
    O crime definitivo de lesa-pátria carateriza-se na (des)Educação nos últimos 100 anos desta pseudo república.
    Abraços e parabéns pela lembrança. Em qualquer país minimamente responsável pelo seu povo, haveria filmes e debates sobre os construtores da pátria. Aqui o silencio diz tudo sobre qual é o projeto que fundamenta a ação dos escroques que sempre dominaram e dominam o Brasil.

  3. Quanta falta faz Rui Barbosa no nosso tempo!

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