A deusa do capitalismo

João Francisco Neto

“Os grandes capitalistas seriam, a seu ver, ‘aqueles que carregam o mundo nas costas'”

A partir da década de 1980, boa parte do mundo ocidental passou por uma grande virada conservadora, liderada pelos governos de Ronald Reagan (EUA) e Margareth Thatcher (Reino Unido). Daí para frente, tanto a política quanto a economia voltaram-se para o chamado neoliberalismo, que, em última instância, tem como meta alcançar o Estado Mínimo. Para uma expressiva parcela da população, a concepção do Estado Mínimo é um argumento sedutor, na medida em que prevê um Estado enxuto, restrito às atividades de segurança, justiça e regulação, sem atuação nas demais áreas – principalmente as assistenciais e as produtivas -, que ficariam por conta da iniciativa privada.  Em meio às fortes turbulências por que o mundo passou, como a queda do Muro de Berlin e o avanço da globalização, a doutrina do neoliberalismo perdeu grande parte do encanto que tinha. Perdeu, mas não morreu.

Nesse ínterim, assistimos a um forte avanço do conservadorismo, modernamente chamado de “neoconservadorismo”.  Trata-se de um fenômeno que tem sido mais notado na Europa, com a ascensão de governos de direita, e nos Estados Unidos, com o fortalecimento do Partido Republicano, inclusive de sua ala ultraconservadora, o “Tea Party”. Um claro sinal disso é a dificuldade com que os países europeus vêm lidando com a questão dos refugiados, que diariamente chegam aos milhares, em busca de segurança e de melhores condições de vida. Os Estados Unidos, que por um longo período, apenas observaram a crise, agora se dizem aptos a receber uma parcela dos migrantes. Da mesma forma, o governo brasileiro, a princípio um tanto quanto reticente, anunciou a disposição de acolher principalmente os refugiados sírios […] Continue lendo

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4 Comentários to “A deusa do capitalismo”

  1. João, noutro artigo disse que vc é soberbo, usei o adjetivo (que impressiona pelo magnífico-Houaiss). Seu texto é agradável e de uma fluidez incrível. Gostaria que vc avançasse sobre se o neoliberalismo e conservadorismo, no Brasil, andam de mãos dadas.

    • Prezado Adilson,

      Fico lisonjeado com os seus elogios ! Obrigado !

      Nestes tempos agitados de internet, em que ninguém tem mais tempo para quase nada, procuro elaborar textos que não sejam muitos cansativos e que tomem muito tempo do leitor.

      Muitas vezes, depois que escrever um artigo completo, passo então a “enxugá-lo”, cortando muitas coisas, para que as ideias possam fluir melhor, indo direto ao ponto.

      Acho muito desagradáveis alguns textos obscuros, em que não sabemos aonde o autor quer chegar. Outra chatice também ocorre quando se quer mostrar erudição, com o emprego de palavras difíceis… aí não dá!

      Em alguns artigos eu gostaria de escrever muito mais, para expor o tema de forma mais adequada. Ocorre que são textos escritos originalmente para pequenos jornais, que não comportam longas matérias. Se forem longos, certamente afugentarão os leitores!

      Assim prefiro publicar textos mais curtos, ainda que o tema não seja nem de longe esgotado. Preciso ficar atento, caso contrário acabo elaborando uma peça acadêmica!

      Quanto ao neoliberalismo e o conservadorismo, você foi direito ao ponto, meu caro: a meu ver, há sim um vínculo muito estreito entre um e outro, principalmente nos Estados Unidos, onde essas correntes de pensamento têm importantes doutrinadores e muitos seguidores, que assim se proclamam, abertamente, sem meias palavras.

      No Brasil, ao contrário, ninguém quer se declarar neoliberal e muito menos conservador, ainda que o sujeito seja ultraconservador. Por aqui, tanto os políticos quantos as pessoas em geral se ofendem ao ser chamadas de neoliberais ou conservadoras; todos querem ser “progressistas”.

      Nos Estados Unidos, e em boa parte da Europa, esses papeis estão bem evidenciados dentro da sociedade. Aqui, como em quase tudo, as coisas são mais nebulosas, e muita gente acha que basta mudar o nome de uma coisa para aquela coisa deixar de ser o que é.

      É isso aí, Adilson. Agradeço-lhe novamente por seu interesse em meus textos, e pela dica: com tempo vou procurar desenvolver um texto sobre a aproximação entre o neoliberalismo e o conservadorismo.

      Um forte abraço,

      João Francisco

  2. Prezado João parabéns pelo excelente texto! Muito nos honra e nos orgulha ter um colega assim, principalmente por nossa classe, seja onde for, estar tão mal vista pela sociedade principalmente nos últimos tempos. Espero que essa fase ruim passe logo. Portanto, peço que continue nessa sua luta, sempre disseminando seus conhecimentos e ajude a iluminar o mundo, pois precisamos disso.
    Quanto ao tema, concordo com o colega Adilson. No entanto, avançando mais um pouco e jogando uma pitada de polêmica, ambos não veem que as próprias ideologias que deveriam ser contrapostas, atualmente parecem caminhar também juntas?
    Atualmente não vejo diferença entre um governo dito trabalhista e, portanto, que deveria ser ao menos mais à esquerda e um governo de direita na Europa por exemplo (França, Espanha e Inglaterra). Aliás, quer me parecer que hoje a Europa está mergulhada na crise justamente por tais atuações tímidas, pífias de governos “ditos” de esquerda e de atuações incisivas de governos de direita na aplicação de suas doutrinas.
    Nos EUA também, apesar de que há pequenas diferenças entre Democratas e Republicanos, me parece que ambos tem a mesma forma de atuação, sendo que os Republicanos são um pouco mais belicosos (militarmente e politicamente). Aqui entre nós, depois de que o Sr. Levy assumiu a Fazenda, me parece que não há mais nenhuma diferença entre este governo (teoricamente de esquerda) e um ultraconservador. Então, me parece que o mundo anda em uma linha só, a do domínio do poder econômico, com pequenas nuances dividindo que, em tese, exerceria o poder formal.
    Logo, não apenas o neoliberalismo e o conservadorismo andam de mão juntas, mas muito mais complicado, no mundo o trabalhismo (ou sociais democratas) e o neoliberalismo me parece que seriam, de fato, irmãos siameses.
    Abraço a ambos os colegas.
    Obs: João, pelo visto de seus comentários, você não suporta ler o Paulo de Barros Carvalho não é? kkk…

    • Prezado Sandro,

      Agradeço-lhe pela atenção dedicada ao meu artigo e, ainda, por ter se dado ao trabalho de comentá-lo, fato que, no fundo, acaba por enriquecer o texto original, pelo debate que se instala, ainda que tímido. Obrigado!

      Sinceramente, acho que a época dos governos de direita e de esquerda já passou. Hoje notamos leves nuances políticos que pouco diferem os partidos ditos de esquerda, trabalhistas, sociais-democratas de outros de direita, conservadores, etc. No Brasil, então, nem se fale.; basta ver como agem os partidos comunistas por aqui: igual a todos os outros.

      Aliás, na Rússia atual e em grande parte dos países da antiga “Cortina de Ferro”, os partidos comunistas da extrema esquerda ocupam o lugar dos mais conservadores, saudosistas que são do antigo modelo soviético que, de alguma forma, proporcionava uma zona de conforto para milhões de pessoas acomodadas e apolíticas.

      Nos Estados Unidos costuma-se dizer que há apenas um partido – o partido dos interesses americanos – dividido em duas alas, a republicana e a democrata. De fato, à exceção de um ou outro tema, há pouca diferença entre os dois partidos, principalmente em relação às grandes questões de interesse americano. Publicamente, fazem um jogo de cena em relação às questões relacionadas aos imigrantes, questões raciais, de gênero, etc.

      Até o governo Lyndon Johnson, o Partido Democrata era um forte reduto de conservadores que, aborrecidos com o programa popular denominado de a “Grande Sociedade”, migraram em peso para o Partido Republicano que, a partir daí, assumiu uma agenda mais conservadora ainda.

      A meu ver, hoje o debate político está mais ligado às questões de costumes, liberdade religiosa (veja a questão do véu islâmico na França), sexualidade, etc. Quanto às questões econômicas, o que todos querem (queremos!) é empregos, bons salários, bons serviços públicos, segurança, saúde, boas escolas, independentemente da orientação partidária, que pouco ou nada diz às pessoas.

      São os tempos da modernidade líquida, como diz Zygmunt Bauman, ou da pós-modernidade, em que todas as antigas certezas se desfizeram, ou se desmancharam.

      Quanto ao Paulo de Barros Carvalho, você tem razão: não há como não reconhecer a sua grandeza no mundo jurídico, mas não é nada fácil digerir suas obras kkk

      Por fim, agradeço-lhe novamente por sua atenção, e envio-lhe aqui minhas saudações, extensivas aos colegas do Estado do Paraná, cujo povo tem dado a todos nós brasileiros preciosos exemplos de civilização!

      Um forte abraço,

      João Francisco

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