Haddad: “Elite paulistana é predadora”

Aldo Fornazieri

Na última semana o prefeito Fernando Haddad soltou o verbo – em entrevista à BBCcontra a elite paulistana. Classificou-a de míope, sugerindo que ela é avessa em contribuir com a cidade e com o bem público. Afirmou que:

Hoje, infelizmente, temos um poder econômico amesquinhado e empobrecido do ponto de vista espiritual, mas muito rico do ponto de vista material

Para essas elites não importa se 160 mil crianças não têm creches, não importa a qualidade física das escolas públicas […] não importa a falta de vagas nos hospitais públicos […]. Essas elites vivem em condomínios-fortalezas, andam de helicóptero e de carro blindado, gastam em apenas um jantar em restaurante de luxo o valor de muitas bolsas-família. Os seus bairros são bem policiados e clamam por mais repressão contra os movimentos sociais e contra qualquer coisa que, aos seus olhos, representa “desordem”.

A bandeira da reforma tributária deveria ser um dos itens principais dos movimentos sociais que se manifestam nas ruas

Essas elites arrancaram suas imensas riquezas e auferem seus exorbitantes lucros sobre o solo cidade de São Paulo, sobre o suor e o sangue dos trabalhadores […] Essas elites nada querem dar para a cidade e procuram tirar dos seus cidadãos o máximo que podem. O caso da ação na Justiça impetrada pela Fiesp contra o reajuste do IPTU é um exemplo cabal desta relação predadora que as elites movem contra a cidade […] não dizem que os aumentos mais significativos incidiriam sobre os imóveis de maior valor, localizados nos bairros mais ricos, nos bairros mais entregues à especulação imobiliária.

O caso do IPTU na cidade de São Paulo é emblemático quanto ao poder das elites: se elas não controlam o poder executivo e não têm maioria nos parlamentos, recorrem aos tribunais para proteger seus interesses […] Leia mais

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7 Comentários to “Haddad: “Elite paulistana é predadora””

  1. Ótimo esse artigo. A carga tributária é mal distribuída no Brasil. Não dúvida. Exemplos:
    a) Iates, embora sejam veículos automotores, não pagam IPVA, e alguns valem fortunas!!!
    b) Substituição Tributária do ICMS tributa por margem média de valor acrescido, mas é óbvio que os produtos mais sofisticados, mais elaborados, de marca, vendidos em boutiques finais e shoppings de grife, têm margens maiores do que os consumidos pelo povão; ou seja, na média elite e povão pagam com base nas mesmas margens, mas o povão paga mais do que deveria, e a elite menos do que deveria, às vezes muito menos do que deveria.
    c) Alguém da classe média tem um imóvel alugado e paga 27,5% de IR sobre o aluguel, mas se for da elite, se tiver dezenas de imóveis, vale a pena colocá-los e numa PJ e pagar 11% de IR no total.
    d) Como elitista consciente, tenho uma Ecosport nova, pela qual paguei em novembro R$ 59.000,00. Pago em 2014 cerca de R$ 2.200,00 de IPVA, e de IPTU da casa em que moro, que vale 20 vezes o carro, pago menos que o triplo… É óbvio que há um desequilibrio sobre a tributação da propriedade, e é óbvio que a propriedade tem ser tributada de outro modo, com alíquota MUITO MAIS PROGRESSIVAS do que as atuais, com direito a ampla faixa de isenção para quem possui um único imóvel.
    E muitos outros exemplos de carga tributária mal distribuída existem. Se os fosse elencar, teria de publicar um livro a respeito.
    Então, sou obrigado a concordar em gênero, número e grau com o Haddad.
    E a quem interessar possa: não sou petista, mas não tenho preconceito nenhum contra petista, nem contra qualquer outro ista, esta ou osta. Tenho preconceito, isto sim, contra desordeiros e injusticeiros, e estes devo dizer que grassam por todas as classes sociais, por inúmeros governos, por todos os partidos e cortes (até no STF há espécimes do tipo), infelizmente.

    • Caro Valente,
      É aquela velha história do copo com água pela metade, para uns esta quase vazio, para outros quase cheio.
      Você citou como exemplo o valor cobrado do IPVA para justificar o valor do IPTU. Enquanto o estado de Tocantins cobra 1% de alíquota, São Paulo cobra 4%, esquecendo até de ajustar esse percentual para a frota bi-combustível. Quem não se lembra que carros movidos à álcool, nos anos 70, passaram a receber incentivo com alíquota de 3% contra os 4% para gasolina? Na era flex o governo esqueceu de, ao menos, tributar a 3,5%. Assim sendo, Valente, a sua Ecosport no Tocantins pagaria 1/4 do que você pagou em São Paulo refletindo no IPTU da sua casa (que vale 20 vezes a Eco) perto de 11 vezes.
      No mais, concordo com a sua avaliação, mas lamento que o prefeito Haddad tenha mal utilizado o discurso e descambando para o velho e surrado discurso de botequim, jogando “classe trabalhadora” versus “elites dominantes”, esquecendo por completo que quem consome/poupa de verdade neste país, a muitas duras penas, é a Classe Média.

  2. “Doar” é coisa de liberal. Aqui a ideia é que o Estado é responsável por tudo…

    http://www1.folha.uol.com.br/fsp/saber/sb2012201004.htm

    Dinheiro privado passa longe das brasileiras

    Harvard recebeu R$ 526 milhões em doações, além de fazer parcerias com empresas

    DE SÃO PAULO

    Tão comum nas grandes universidades americanas, o repasse de dinheiro de pessoas e empresas quase não acontece por aqui.
    A primeira colocada no ranking, Harvard, recebe quase o dobro de recursos de empresas privadas que a Unicamp e ainda teve um fermento adicional em 2009 de R$ 526 milhões em doações -boa parte para pesquisa.
    “Temos vontade de doar, mas é tudo muito difícil”, diz José Carlos Junqueira Meirelles, sócio do escritório Pinheiro Neto Advogados.
    Neste ano, a empresa doou R$ 600 mil para uma sala de aula da Faculdade de Direito da USP -onde boa parte dos sócios estudou.
    Mas o barulho diante do dinheiro recebido foi grande, e houve quem questionasse as intenções do Pinheiro Neto no repasse à USP.
    “Resta saber se a universidade não recebe doações por causa da dificuldade ou se a dificuldade existe porque não é comum que existam doações”, diz Meirelles.
    Dar dinheiro para a universidade em que se estudou é algo tão disseminado nos EUA que acontece até com quem não é norte-americano, como o empresário Antônio Ermírio de Moraes.
    Sua família fez doações à Escola de Minas do Colorado, onde ele e alguns de seus filhos estudaram. “Temos uma relação com a universidade”, diz Regina de Moraes Waib, filha de Antônio.
    Mas, se as doações ainda passam reto pelas universidades brasileiras, a boa notícia é que as parcerias entre elas e as empresas privadas têm crescido.
    “As empresas estão fazendo parcerias porque agora estão fazendo pesquisa, o que antes quase não acontecia”, diz o engenheiro Sérgio Robles de Queiroz, especialista da Unicamp em política científica e tecnológica.
    Na própria Unicamp, o dinheiro privado aumentou de R$ 6,8 milhões para R$ 23,8 milhões em dez anos.
    Já a USP não sabe se o montante cresceu: a universidade informou não ter dados sobre a quantidade de dinheiro privado que recebe.

    LUCRO
    Na análise de Rogério Meneghini, especialista da USP em indicadores científicos, ainda existe uma cultura no país de que a ciência não pode dar lucro.
    Mas essas vozes estão ficando isoladas. “Há um movimento dos empresários para fazer ciência e inovação”, disse o ministro Sérgio Rezende (Ciência e Tecnologia).
    Sem recursos privados, e com orçamento do governo que só dá para o básico (85% do que a USP e a Unicamp recebem é para pagar salários e aposentadorias), a dependência das universidades das agências públicas de fomento à pesquisa (como Capes e Fapesp) permanece. (SABINE RIGHETTI)

  3. http://www1.folha.uol.com.br/fsp/saber/sb2012201006.htm

    Problema é a mentalidade, diz brasileiro em Princeton

    DE BOSTON

    O físico brasileiro Raul Abramo, 41, trocou temporariamente a livre-docência no Instituto de Física da USP por Princeton (Nova Jersey), onde é pesquisador-visitante no departamento de Ciências Astrofísicas.
    Mais do que dinheiro, Abramo aponta como obstáculo no Brasil a falta de apoio institucional.
    “Há muitas universidades na China, na Índia e até na Europa que fazem muito mais que a USP, com menos dinheiro”, afirma. “A questão de salários já não é o problema faz tempo.”
    O problema, para ele, passa pela mentalidade. “Nos EUA, na Inglaterra, no Japão e na Alemanha há uma grande sinergia do setor privado com universidades e centros de pesquisa”, afirma.
    “Não há o preconceito prevalente no meio acadêmico brasileiro de que as empresas que se aproximam das universidades vão se apropriar de um “bem público”.”
    Abramo vê nos EUA um estímulo maior ao pesquisador, pois quem trabalha e obtém resultados se distingue. “São essas pessoas que recebem bolsas e verba de pesquisa, e são as opiniões delas que contam.”
    Já no Brasil, diz, a indissociabilidade compulsória entre ensino e pesquisa se reverte em práticas improdutivas, como acadêmicos que lecionam oito horas por semana e não produzem material científico.
    Pesquisadores de até 50 anos, que produzem a maior parte das descobertas relevantes, e estrangeiros são valorizados nos EUA. “No Brasil até a USP, fundada por estrangeiros, coloca grandes dificuldades para a contratação de estrangeiros.”
    A mentalidade empresarial americana perpassa também a captação de recursos, que cabe ao pesquisador. “E quando um pesquisador consegue US$ 1 milhão (R$ 1,7 milhão), tem que dar um percentual à universidade para custear suas atividades e reduzir anuidades.”
    Embora ressalte que no Brasil a captação tenha melhorado, Abramo ainda vê empecilhos em idiossincrasias institucionais, como ter de alocar toda a verba antes de o projeto ser submetido.
    Isso inviabiliza, por exemplo, repassar a bolsa de um estudante que desistiu a outro. “Assim, os orientadores tendem a evitar riscos -o que prejudica alunos com potencial, mas que tiveram formação mais carente.” (LC)

  4. Com relação ao comentário do José Luiz, no tocante ao imóvel de 500 mil pagar 20 mil de IPTU, só para esclarecer, esta não era a proposta Haddad, absolutamente.
    Em primeiro lugar, a alíquota não seria alterada.
    Em segundo lugar, a atualização feita não levaria os imóveis a valor de mercado, haveria um deflator progressivo ao longo dos próximos anos até a outra PGV – Planta Genérica de Valores; ou seja, um imóvel de 500 mil não seria de pronto tributado pelo BC de 500 mil, mas menos, e à alíquota, salvo engano, é de 1,0%, portanto o IPTU desse imóvel ficaria em torno de uns 4 mil e pouco em 2014. Ou seja, seria o equivalente ao IPVA de duas Ecosports, que valem no máximo 120 mil. Convenhamos, não seria tão injusto como se propalou.
    Em terceiro lugar, haveria uma faixa de isenções mais abrangente do que a atual.
    Enfim, o bicho não seria tão feio como pintaram.

    E se é verdade que carro não é imóvel, também é verdade que ambos são propriedades úteis para quem as tem, seja para morar, para ir ao trabalho, para trabalhar nela ou com ela, ou para passear.
    Mas tem muita gente com vários imóveis, de morar, de veranear, de invernar, e de criar gado e etc, com iates e jatos, e que não quer pagar imposto sobre essas propriedades, ou, quando muito, concorda em pagar migalhas de imposto. E ai do governante que tentar tributar com mais rigor esses itens. Logo caem de pau os ruralistas, os iatistas e outros istas.
    O ideal seria que os imóveis fossem tributados progressivamente: quem tem um imóvel de valor baixo, de classe baixa , devia enquadrar-se na faixa da isenção; quem tivesse um imóvel de valor médio, de classe média, deveria enquadrar-se numa faixa de alíquota pequena (talvez iniciando em 0,5%), e progressivamente, em função do VALOR VENAL IMOBILIÁRIO ACUMULADO pelo contribuinte, essa alíquota iria crescendo até o limite máximo, digamos, de 2%. Seria um sistema bem mais justo. Claro que implicaria em mudanças até constitucionais na sistemática de cobrança e declaração de bens, sendo que esta teria de ser feita não mais em função apenas do custo de aquisição, mas também do próprio valor venal atualizado pelas municipalidades em que os imóveis se situam. Porém, esta forma de apurar seria extremamente complexa e dependeria de cruzamento com dados declarados à Receita Federal.
    O Haddad estava sendo até que light em sua proposta, pois não previa essa progressividade mais agressiva, digamos assim.
    Talvez, se não tivesse ido com tanta sede ao pote, se não tivesse atingido com sua proposta as classes média baixa e média média (aquelas que tem um ou dois imóveis relativamente modestos, com valores atualizados que não perfazem R$ 1 milhão), conseguiria aprovar o projeto. Mas o projeto só livrava a cara dos muito pobres, e por isso foi defenestrado pela opinião pública.
    Em outras palavras, a classe média foi o pivô da rejeição, e com justo motivo: é a maior vítima da péssima distribuição da carga tributária brasileira. A elite não é vítima, pelo contrário, mas a classe média é mais vítima da escorcha nacional do que até mesmo as classes menos abastadas, pois estas têm algumas defesas nos tributos diretos, são isentas IR, por exemplo, em muitos municípios, inclusive em SP, são isentas de IPTU, são isentas de ICMS sobre contas de energia, etc., e seus filhos estudam em escolas públicas, ao contrário da classe média, que tem todas essas despesas tributárias e ainda paga mensalidade escolar, plano de saúde, seguro de automóvel, condomínios mais salgados em virtude de gastos maiores com segurança, etc.
    (escrito ao correr dos dedos, sem revisão, queiram desculpar os erros)

  5. Obrigado pela notícia do Raul Abramo, José Luiz. Tive aula com ele. Grande perda da USP, era um excelente professor.

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