A casa da Senadora Joana

Se você agir sempre com dignidade, talvez não consiga mudar o mundo,
mas será um canalha a menos.
John F. Kennedy

O primeiro decoreba a gente nunca esquece. Alguns marcaram tanto a humanidade que parecem ter sido cunhados sob medida para os corações puros dos neófitos, como este: Jurisdição é o poder que tem o Estado de dizer o direito. Parece bobagem, mas rios e rios de sangue foram derramados até que o homem chegasse a conceito tão arrebatador.

Para que os súditos conquistassem o direito de ir e vir, e de retornar à Casa da Mãe Joana, muito cuspe foi lançado das tribunas populares. Milhares de cabeças rolaram em nome do direito sagrado de falar quando nos for conveniente, ou de permanecermos em silêncio para não ter que contar mentiras deslavadas perante a Comissão de Perguntas Imbecis da Câmara (CPI).

Para sorte dos formandos da FACUPLAC — Faculdades Arranjadas Corruptos Unidos do Planalto Central —, a Teoria Geral do Processo Culinário foi condensada em uma receita de pizza. Até hoje a massa é a mesma, só varia o recheio, Zé Sarnento que o diga.

Sou bacharel em direito, turma de 2003, mas nunca exerci a advocacia. Não tenho saco para bajular juiz. Indicado por um amigo, ingressei no quadro de funcionários fantasmas do Legislativo Federal.

Atualmente, presto serviço para quatro senadores, eleitos por estados diferentes. Opero nos bastidores, no mais absoluto sigilo. Para minha mulher e filhos digo que sou agente imobiliário com negócios em Brasília. Mas não é por que trabalho para a Casa do Espanto que me movo como um fantasma, e sim por causa do serviço espúrio que sou obrigado a fazer, e também pelo fato de ter sido nomeado por ato inexistente. Melhor ser um morto-vivo do que morrer assassinado! No mais, não tenho do que me queixar; com os R$ 52 mil que recebo por mês dá pra garantir o leite das crianças.

Duas vezes por mês venho a Brasília para receber meu pagamento, sempre em dinheiro vivo. Na última vez que estive no Planalto Central, testemunhei uma cena lamentável. O fato aconteceu na Casa da Senadora Joana, boate servida pelas garotas mais lindas do cerrado, estabelecimento requintado, onde bebe-se do melhor champagne, come-se as melhores carnes do mercado e joga-se a valer o dinheiro do contribuinte.

Eu estava em um canto escuro, negociando verbas públicas com uma francesa no colo, avião indomável que eu tentava comprar sem licitação. Vocês sabem como são as mulheres, sempre relutam em transferir tecnologia, a não ser em troca de vantagens monetárias. Não sei como a coisa começou; já havia tomado meia garrafa de uísque paga pelo Erário. Em meio à discussão sobre comissão de obra superfaturada, ouviu-se um revirar de mesas, barulho de copos quebrados, mulheres correndo e gritando, e o Senador Demole Torres, conhecido como Filho do Demo, sacou de uma pistola Glock e disparou cinco tiros; um deles acertou o braço do Bicheiro Cachoeira.

Não foi difícil abafar o busílis, a segurança da Casa da Senadora Joana é feita pela Polícia Legislativa, portanto não haveria necessidade de processo, perícia, queixa crime, nada dessas bobagens que tiram o sono das pessoas comuns. Mas, como diria o Zé Sarnento, um senador da república não é uma pessoa normal, de modos que utilizamos o helicóptero do Corpo de Bombeiros para remover o mais rápido possível o Bicheiro Cachoeira para uma clínica particular.

Eram quase seis da matina quando cheguei ao apartamento funcional, crente que tudo tivesse sido resolvido.

Uma semana depois, num domingo, eu já estava em minha residência, a mil e duzentos quilômetros de distância da Capital Federal, quando a “manchete” que nós do submundo de Brasília já conhecíamos desde os tempos em que Oscar Niemayer fumava cigarro com piteira foi trombeteada no Programa “Fantástico”: Torres atuava como satélite do Capitão Cachoeira no Senado, intermediando alterações em projetos de Lei, repassando informações privilegiadas, antecipando-se a operações da Polícia por meio de uma rede de espiões; intercedendo em nome do amigo bicheiro junto aos Tribunais Superiores; usando do prestígio de Senador da República em prol das atividades criminosas do “Senador Cachoeira”.

Segundo a Revista ISPIA SÓ!, o Senador Torres teria recebido US$ 2 milhões em subornos provenientes de esquema de jogo ilegal montado por Cachoeira, além de possuir linha exclusiva para falar com o bicheiro (um telefone Nextel com criptografia de voz para escapar dos grampos da Polícia Federal). Torres, o demolidor da corrupção, algoz do Partido dos Trabalhadores, foi pego pela operação Monte Carlo, falando pelos cotovelos. Caiu como um prédio em ruínas.

No meu tempo de estudante, isso jamais aconteceria: um senador nunca passaria a perna no colega. Seguíamos à risca a ética do Mercado da Corrupção: você protege seu contratante da Iniciativa Privada e ele te protege dentro da Administração Pública; evite aparecer; melhor um contratinho aqui, outro ali, do que chamar a atenção e ser engolido por um tubarão.

Até hoje, faço questão de ensinar isso aos meus filhos…

Nota: esta é uma obra de ficção, qualquer semelhança com pessoas vivas, de carne e osso, são meras assombrações que povoam a mente do autor.

JT Palhares

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