Cobrar tributos no Brasil é uma atividade divertida, pode apostar. A cada cinco minutos, os Intocáveis gozam de sua cara. E quando a coisa ameaça ficar séria para o lado deles, o Governo os acalma com parcerias, anistias, remissões e cafezinhos.
Vindo dos rincões das Minas, dois fiscais do Imposto Estadual de Circulação Sanguinea, Respiração e Congêneres, acompanhados do Chefe da repartição, chegaram a Beagá, Capital das Alterosas.
Caía a tarde. Debaixo dos viadutos, vagabundos e outros milionários pitavam crack. Próximo ao Pirulito, ao preço de R$15, escroques ofereciam aos pobres diabos bilhetes de passagem pela porta da frente, ida e volta. Nas galerias subterrâneas, ratos mais gordos do que gatos de três quilos devoravam restos de pizza com Coca-Cola.
O relógio da Igreja São José Operário bateu cinco horas. Em poucos minutos, o trânsito da Capital se converteria em uma sinfonia infernal. Então, a cavalgada de valquírias enlatadas desceu da Serra Verde – cada carro, uma cabeça – entubando a Antônio Carlos. Os sinais de trânsito entraram em colapso, piscando no verde, amarelo e vermelho. Se você pretendesse atravessar a Avenida, esperaria até nascer do outro lado.
Basta chover dois milímetros para que a melhor energia elétrica do Brasil seja cortada. Trovões ribombam nos céus de chumbo. Mudos de medo, os mineiros falam pelos dedos. Nesse momento caótico, ruas alagadas, lixo transbordando dos bueiros, a melhor maneira de se comunicar com o colega do barco ao lado é enviando-lhe um Torpedo Legal.
De volta à realidade, naquele dia o tempo estava bom. O fiscal-motorista encostou o possante em frente ao Hotel Cheverny, onde poderia permanecer o suficiente para o desembarque. Sem esperar ordens superiores, trataram de retirar suas malas – detalhe: cada um dos fiscais, porque Chefe que é Chefe não carrega mala, pelo menos enquanto houver um subaltermo por perto… quanto mais dois.
Avistando um grupo de gerentes, o Chefe parou para se inteirar das novidades: metas de arrecadação, alinhamento e balanceamento estratégico, quem iria assumir a vaga de Efe-Nove deixada pelo Almeida, que se enforcou com a própria gravata, e também para se gabar de ter aparecido na 12 Arrobas, revista eletrônica da Fazenda, por cinco vezes no mesmo mês.
Enquanto isso, os dois barnabés providenciavam a hospedagem. Preencheram os papeis e se instalaram. Quando desceram do apartamento, o Chefe continuava no mesmo lugar, sentado no sofá da recepção, batendo papo feito um cacique. Nem lhe deram pelota, passaram batidos.
Puxaram o carro. Planejavam estacioná-lo na garagem da Secretaria. Depois, quem sabe, tomar aquele chopinho, pegar um rango, olhar as mineirinhas e conversar fiado, sem esquecer de falar mal do Chefe – papinho leve, é claro.
No hotel, depois de colocar a fofoca em dia, o Chefe subiu para o quarto, louco para tomar um banho. Cantarolando, girou a chave. Entrou no quarto e teve aquele estalo: Uai, cadê minha mala? A ficha caiu rápido. Saiu do quarto batendo a porta.
O elevador nunca que chegava. Depois de uma eternidade, conseguiu vencer os doze andares. Na recepção, sem dar boa-noite, foi logo perguntando:
– Vocês viram se alguém deixou minha mala aqui na recepção?
Não. Ninguém havia visto sua bagagem. Perguntou pelos dois fiscais.
– Ouvi dizer que foram guardar o carro na Rua da Bahia – respondeu um sujeito de bigodinho.
Espumando de raiva, lá se foi o Chefe, subindo a Bahia. Mas não seguia tranquilo como o poeta, e sim soltando fogo pelas ventas. Filhos de uma égua. Que falta de consideração!
Na garagem, o Chefe interrogou o vigilante.
– Como eram os caras? – quis saber o vigia.
– Um era assim-assim, o outro assim-assado – explicou o Chefe, dando detalhes.
– Ah, sei. A garagem está lotada. Mandei-os para o estacionamento da Floresta. Faz uns trinta minutinhos que eles desceram.
– É mesmo? – perguntou o Chefe, desiludido.
Filhos de quengas! Quando eu encontrar aqueles dois (cobras, lagartos, taturanas), eu os mato! – pensava o Chefe. Um cachorro cruzou seu caminho. Meteu-lhe um pontapé nos quartos e o bicho saiu, ganindo ladeira abaixo. O Chefe estava disposto, mesmo sem a muleta do planejamento estratégico.
Desceu Bahia, subiu Floresta. Chegando ao estacionamento, viu que o carro oficial estava na garagem, mas nem sinal dos dois fiscais. Informou-se.
– Não, eles não chamaram taxi, tenho certeza. Voltaram a pé – disse o segurança.
Desceu Floresta, e depois de muito perambular, quando subia de novo a Bahia, deu de cara com os fiscais na calçada de um bar. A mesa farta, os dois bebiam e contavam piadas.
– Cadê minha mala? – fuzilou, antes que o cumprimentassem.
– Sua mala? Ih!, Chefe, você não desceu com ela não? – perguntou um dos agentes, botando a mão na cabeça.
– Não.
– Então ficou no carro – deduziu o outro.
– Vamos lá, agora! – ordenou o Chefe.
Nem tiveram tempo de acabar o quinto chope. Num silencio de enterro, desceram Bahia e subiram Floresta.
– Quem disser uma gracinha, morre – prometeu o Chefe.
Mas não teve morte alguma, tanto é que estou aqui, escrevendo esta crônica. E lá se foi mais um diaaaaaa…
Nota do autor: cinquenta por cento deste texto é mentira, a outra metade foi inventada.
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